O Adestramento Brasil completou sete anos. Lancei o site em junho de 2017 e ele, muito rapidamente, consolidou-se como a principal fonte de informação sobre a modalidade, engajando a comunidade e fornecendo conteúdo exclusivo. Contudo, nesse tempo todo, nunca escrevi um editorial, que, para quem não sabe, é um texto opinativo (diferente das matérias e reportagens que são factuais, noticiosas e objetivas) trazendo a visão e o posicionamento do veículo. Para inaugurar a seção ‘Editorial’, escrevo sobre um tema que muitos preferem varrer para debaixo do tapete: maus-tratos.
Por anos, observei entidades e atletas seguindo uma estratégia corporativista de abafar os casos, como se não falar sobre eles acabasse com o problema. Todas as vezes que publiquei notícias sobre maus-tratos recebi comentários de gente do meio me dizendo que era melhor não publicar para não “manchar a imagem” ou não dar “munição” a quem é contra o esporte.
Quando as matérias são publicadas por veículos não-especializados, pessoas do meio equestre costumam rotular o jornalista ou o veículo de “contra o esporte” ou “a favor de polêmica” — ignorando que, se existe um fato (como uma denúncia, por exemplo), é função do jornalista apurar e publicar.
Em um momento quando os esportes equestres estão na berlinda, abafar somente leva a opinião pública a achar que nada é feito pelas autoridades para proteger os cavalos e reforça a posição de quem quer acabar com a prática do hipismo. Para tentar reverter a visão que muitos têm do hipismo, o caminho vai justamente na outra direção, a de falar sobre o tema.
Para os esportes equestres continuarem existindo, antes de tudo, a própria comunidade deve se autorregular — de verdade —, denunciando, investigando e punindo os casos de maus-tratos. Porque, se a comunidade não fizer isso, virá alguém de fora e o fará. E as chances são da gente não gostar do resultado.
Isso inclui entender que algumas crenças, métodos e atitudes, que antes eram aceitos, não são mais e precisam ficar no passado. Indo além, será que não seria necessário uma “calibragem” entre o que os juízes querem ver, o regulamento da Federação Equestre Internacional e o que é naturalmente possível para um cavalo — mas isso se trata de uma longa discussão que requer um debate aprofundado… quem sabe em um próximo editorial?!
Informando os leigos
Para fora do mundo equestre, todos nós envolvidos com esportes equestres, temos de explicar quantas vezes for necessário que existem regras a serem seguidas e que quem ama de verdade os cavalos zela por eles. Mas palavras sem ação não são nada.
A sociedade tende a somente acreditar que a comunidade, de fato, tem o cavalo no centro, priorizando seu bem-estar, quando falarmos sobre os casos de maus-tratos abertamente, mostrando que as más condutas não são aceitas, para que as pessoas saibam que abuso não é o status-quo.
Tentar convencer as pessoas que são radicalmente contra o uso de cavalos para qualquer fim, seja ele qual for, talvez não seja o caminho mais frutífero. No entanto, há uma vastidão de pessoas neutras e é para elas que deveríamos mostrar o funcionamento das modalidades e como os cavalos são tratados.
Existe uma ampla campanha contra os esportes equestres, encabeçada pela organização de defesa dos animais PETA, que tenta banir o hipismo há anos. A entidade esteve à frente das solicitações de exclusão das modalidades junto ao Comitê Olímpico Internacional e fez campanha pela retirada da equitação do pentatlo, o que, de fato, aconteceu. Os Jogos de Los Angeles 2028 terão a equitação do pentatlo substituída pela corrida de obstáculos — adestramento, salto e concurso completo, pelo menos até agora, estão mantidos.
Mostrando fotos de cavalos com a língua azul, em rollkur, barrados e eliminados por sangue em diversas equipes, a PETA enumerou os casos ocorridos nos Jogos de Paris para reforçar o pedido de banimento das modalidades.
Me parece que apenas mais recentemente que a comunidade equestre passou a entender o poder da opinião pública. No ano passado, o juiz FEI L4/5* Hans-Christian Matthiesen, em entrevista ao Adestramento Brasil, enfatizou que sem educar as pessoas, tanto do meio do adestramento quanto de fora, os esportes equestres correm o risco de acabar. “Somos uma comunidade muito pequena. O mundo equestre é muito isolado, tendemos a permanecer nos nossos clubes e não olhamos para o mundo exterior. Precisamos que as pessoas de fora entendam a nossa forma de ter cavalos, porque senão não teremos o esporte daqui a 15 ou 20 anos”, alertou ele.
Foi mais ou menos o que apontou o jornal USA Today ao dizer que a comunidade equestre nunca teve de defender o que faz e nem como faz para o mundo exterior. Mas, nas Olimpíadas de Paris de 2024 e depois do vídeo da Charlotte Dujardin, o mundo exterior chegou e a comunidade não tem certeza do que fazer sobre isso. “Você pode falar sobre o quão bem os cavalos são tratados o dia todo. Você pode culpar a mídia por focar nos “outliers” em vez do quadro geral. Você pode dizer às pessoas que elas realmente não entendem. Não importa”, escreveu o periódico.
O que fazer?
Campanhas bonitinhas em redes sociais exaltando como cavalos e humanos são parceiros são boas, mas estão longe de serem suficientes. Expor que atitudes erradas não são aceitas e estão submetidas a julgamento e punição leva a uma maior conscientização da responsabilidade que as pessoas que montam têm com seus animais.
Para tanto, deve-se promover a educação para que todos praticantes das modalidades saibam o que se caracteriza como maus-tratos. Não importa se, no passado, algumas práticas funcionaram, mas, se, hoje, existe o entendimento de que fazem mal ao cavalo, elas precisam ser banidas. Montar requer muita técnica e somente o conhecimento leva à melhoria das habilidades.
Tão importante quanto são as entidades regionais, nacionais e internacionais criarem canais efetivos de denúncia, sempre zelando e protegendo pelas identidades dos denunciantes anônimos. E, claro, precisam promover investigações justas, imparciais e corretas acerca de todas as denúncias, não importando contra quem elas foram feitas, e punir os culpados.
Existem regras e elas devem ser cumpridas, certo? E justamente por isso cabe às autoridades treinar comissários para eles fiscalizarem as provas e respaldá-los quando apontarem má-conduta e maus-tratos, independentemente, de quem esteja montando. Os comissários devem zelar pelo bem-estar dos animais nas provas.
Atualmente, com os celulares com câmera ficou muito mais fácil comprovar atitudes que vão contra o bem-estar animal. Obviamente, não se trata de publicar o vídeo para o “tribunal da internet” cancelar a pessoa, mas de denunciar pelos canais formais, submetendo as imagens para averiguação.
Mais do que nunca, todos que amam o esporte equestre precisam zelar por ele e explicar repetidamente como funciona. Isso passa, obviamente, pelo bem-estar animal, pelas entidades não se omitirem, por existirem canais eficientes de denúncias, pelos órgãos reguladores investigarem os casos recebidos e punirem os culpados — respondendo publicamente às demandas.
Somente mostrando à opinião pública que existem regras, que elas são cumpridas e os erros são punidos que poderemos pensar em seguir tendo os esportes equestres como modalidades.
Editorial é um texto de opinião que apresenta o posicionamento da empresa jornalística.


