Treinador e chefe de equipe, Daniel Pinto: O sucesso de um é de todos; e faz publicidade para o país

Treinador e chefe da equipe brasileira de adestramento, Daniel Pinto está em uma fase de observação dos conjuntos. Quer conhecer os cavaleiros e cavalos para saber o que tem de matéria-prima para compor as equipes que participarão do Campeonato Mundial e dos Jogos Sul e Pan-Americanos na jornada rumo à Olimpíada de Los Angeles 2028. Ele quer saber como pode ajudar os cavaleiros brasileiros e a equipe. “Vou respeitar muito o que é o treino de cada cavaleiro com os seus próprios treinadores. Eles sabem os cavalos que têm, porque trabalham com esses cavalos todos os dias e eu vou eu vou de vez em quando”, assinalou, como um mantra a ser seguido, em entrevista por videochamada com Adestramento Brasil.



Daniel Pinto sabe como é estar em uma olimpíada. Ele competiu em dois Jogos Olímpicos (2000 e 2008) representando Portugal. Também disputou edições dos Jogos Equestres Mundiais, Campeonatos Europeus e final da Copa do Mundo da FEI. O português foi contratado pela Confederação Brasileira de Hipismo como treinador e chefe de equipe. Na longa entrevista com esse meio, ele detalhou o que planeja para melhor formar as equipes de forma a garantir que o Brasil conquiste uma vaga para os Jogos Olímpicos de Los Angeles e, efetivamente, leve uma equipe.

Na preparação da equipe brasileira, o cavaleiro e técnico dará clínicas regulares para os postulantes, tanto no Brasil como para os residentes na Europa. Também vai acompanhar competições — estará em CDIs no Brasil, inclusive. “Portanto, há uma parte de competição que eu acompanho para ver o que se passa e a outra parte de trabalho. Os cavaleiros que não têm treinadores, aí sim, eu vou treinar, porque precisam também de algum acompanhamento e temos que dar alguns pontos de referência crescerem”, explicou.

“Quero estar atento e poder ajudar, se me pedirem essa ajuda; e também dar uma intervenção, se achar que há alguns pontos que eu deva alertar, mas não vou obrigar as pessoas a trabalharem comigo”, acrescentou. Há ainda os casos mais assíduos de mentoria, como o de João Victor Oliva e Nuno Chaves.

O sucesso de um é de todos
O mais importante, frisou, é o trabalho em equipe e a atuação mais ampla olhando para um número maior de conjuntos de small e big tours.

“É criar um grupo grande e unido, porque essa união vai fazer a força, vai fazer com que toda a gente sinta que o sucesso de um é também o seu próprio sucesso. O que eu quero dizer com isto? Nós, hoje, quando vemos um cavaleiro alemão entrar em pista, quando vemos um dinamarquês ou quando vemos um sueco, temos tendência em dizer de onde são. É um trabalho de publicidade que uns fazem para os outros. Neste momento, quando o João Oliva faz 72% no grande prêmio, ele mostra um Brasil potente. Daí, quando entra outro cavaleiro brasileiro, o João Oliva contribuiu para ele”, detalhou.

Essa mentalidade de um puxar o outro para cima também contribui para mostrar um Brasil mais forte e focado no adestramento contribui ainda para “o olhar dos juízes”.

Jornada para LA28
Os Jogos Sul-Americanos de Santa Fé são o ponto de partida para o Brasil tentar uma vaga para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Isso porque o Odesur classifica países para o Pan-Americano que, por sua vez, qualifica para LA28. Nesse caminho, Pinto disse que a primeira etapa é tentar ir para o Campeonato Mundial de Aachen neste ano com equipe para exibir ao mundo — ainda por cima na Alemanha — que é capaz. “É mostrar que o Brasil já está com uma equipa, já está a trabalhar para os Jogos Olímpicos e, portanto, isso começa já a construir uma imagem positiva para verem um bom trabalho”, justificou.

Para os Jogos Sul-Americanos, Daniel Pinto esclareceu que a intenção — até mesmo para preservar os cavalos — seria estruturar um time através dos cavalos alocados no Brasil. E, visto que big tour não terá a bonificação dos três pontos porcentuais, uma equipe de small tour poderia ser suficiente para obter a vaga para Lima 2027.

Seguindo esse raciocínio, Pinto contou que o plano é analisar o que outros países, como Argentina e Chile, vão levar a Santa Fé para entender se uma equipe com somente conjuntos residentes no Brasil seria suficiente ou se haveria a necessidade de levar cavalos da Europa.

“Se nós virmos que matematicamente conseguimos tranquilamente fazer sem levar cavalo da Europa para o Odesur, fazemos com os cavaleiros que estão no Brasil. Se virmos que estamos com cavalos melhores na Europa para garantir a qualificação, é o que há de se fazer. Mas penso que há qualidade suficiente no Brasil para fazermos uma equipa do Odesur com os brasileiros que vivem no Brasil.”

Seletivas Odesur: CBH retira bonificação de 3 p.p para big tour

Ambição é importante
Ao mesmo tempo, essa estratégia aumenta o número de conjuntos para se trabalhar para compor equipe. “Ficaríamos com quatro cavaleiros do Mundial e com quatro cavaleiros do Odesur. Ou seja, aqui eu criava oito cavaleiros já a pensar para os Pan-Americanos no futuro”, destacou.

Como atleta, Daniel Pinto sabe a responsabilidade de representar o país e tem a clara noção da importância de as pessoas terem a ambição e verem que há possibilidade para representar o seu próprio país de diferentes maneiras.

Ao contar com um grupo de oito cavaleiros, o objetivo é trabalhar de maneira que todos estejam entusiasmados em integrar a equipe brasileira e, assim, contribuam para o time, porque “focar somente em quatro corta um pouco a ambição de cada um”, justificou.

Na visão do técnico, a seleção da equipe tem que ser objetiva, ser guiada pelas notas e, claro, considerar o critério veterinário para atestar que o cavalo está apto a participar de competições desse porte. A comissão técnica executará esse papel de avaliar o condicionamento dos animais e também avaliar situações nas quais alguns conjuntos tenham notas muito parecidas. É preciso, daí, considerar quais provas cada conjunto fez, quem eram os juízes que julgaram, quais foram os erros etc.

Além disso, o chefe de equipe e técnico ressaltou o papel do comportamento do atleta. “Se é uma pessoa que traz bom ambiente ou se cria a cizânia, problemas, inveja; esses pontos também hão de ser tomados em consideração”, salientou.

LA28: Já estamos atrasados
Questionados o que será feito para o Brasil, como nos dois ciclos olímpicos passados, não conquistar a vaga no Pan e perdê-la por falta de conjuntos com requisitos mínimos de elegibilidade (MER), o treinador reconheceu que o País para os Jogos Olímpicos de 2028, neste momento, já está atrasados. “Se formos analisar friamente os Jogos Olímpicos de 2028 já estão aqui à porta”, disse.

Do lado positivo, há conjuntos na Europa com MER para o Mundial de Aachen, inclusive, tendo pontuado acima de 67%, que é o mínimo para JO — para o campeonato Mundial, o corte é mais baixo, de 66%. No entanto, esses MERs não valem para LA28, já que o período para alcançar os índices vai de 1º de janeiro de 2027 a 11 de junho de 2028. “Portanto, esses MERs de agora não vão contar e vamos ter que os fazer outra vez”, disse Pinto, planejando que o Brasil tenha de contar com algumas qualificativas.

Saiba como se dará a classificação para adestramento em LA28

Também é preciso considerar que cavalos como o Feel Good VO, que têm certa experiência, estarão com mais idade na olimpíada. “São mais de dois anos que vamos ter que ter atenção e preservar, não deixar fazer muitas competições, optando por algumas competições precisas para que o cavalo não saia do ritmo de competição, mas que também não seja exageradamente usado, portanto, para o proteger, para termos cavalo garantido para os Jogos Olímpicos de 2028”, analisou.

Ele acrescentou que o CDI 4* de Alter do Chão é uma prova que deseja a presença de João Oliva e Feel Good. “É um quatro estrelas que dá pontos a mais de porcentagem [no Ranking da FEI]. E, quando formos para o sorteio no Campeonato do Mundo, a pontuação do ranking vai também nos posicionar melhor como equipe”, detalhou, mais uma vez exemplificando como um time deve pensar no todo. Uma melhor posição de um cavaleiro no Ranking de Adestramento da FEI é bom para todos.

Já outros conjuntos precisam ganhar mais experiência. “O Murilo [Augusto Machado] não pode ir para um Campeonato do Mundo com dois internacionais, né? Porque chega a um estádio cheio e vai ser muita pressão. Tem que estar um bocadinho rodado em pista para sentir confiança e, portanto, um concurso um pouco antes do Mundial pode ser importante”, completou.

Seguindo adiante, o trabalho a fazer é preservar os cavalos que podem competir em 2028. “Temos que trabalhar para preservar esta equipa que está no Mundial até 2028 e aqueles que estão em São Jorge empurrá-los rapidamente para saírem em grande prêmio”, apontou. Por isso, o treinador tem clínicas programadas para ministrar no Brasil. Um dos objetivos nas aulas é identificar cavalos que possam subir para big tour, porque é preciso acelerar o processo.

Agenda positiva
Outra estratégia é fazer o Brasil sediar concursos internacionais com juízes quatro estrelas que, muitas vezes, são muito difíceis ir ao Brasil, porque estão muito ocupados. “Sabendo quem são os juízes que vão julgar o Odesur, os Pan-Americanos e as Olimpíadas, começamos a criar uma agenda de maneira que esses juízes sejam convidados e que venham contribuir para a evolução da nossa equipa; que nos ajudem a efetivamente irmos na direção certa de termos os pontos certos e chegarmos aos objetivos que queremos”, disse.

Ao fim e ao cabo, Daniel Pinto quer mostrar que o Brasil tem potencial. Quando ele sobre o trabalho com os juízes, é entender o julgamento deles, conversar e identificar quais pontos que faltaram e o que que precisa aprimorar. “Muitos juízes internacionais foram cavaleiros muito bons; têm experiência em pista, foram cavaleiros medalhados.”

É fazer com que juízes sintam-se parte da evolução dos cavaleiros. “Porque esse é o propósito do juiz; é ajudar os cavaleiros a montarem melhor e que os cavalos estejam melhores. Para isso, temos que ser uma família unida e falar todos a mesma língua. Não podemos achar que os juízes estão contra nós. É um trabalho de equipa, porque somos todos homens de cavalos”, ponderou.

E mais: provas em que bons juízes julguem no Brasil, para além de darem informação boa aos cavaleiros, vão dar também uma boa informação aos juízes brasileiros que julgam a nível nacional no Brasil. “Não é só pensar na equipa principal. É pensar na formação geral do panorama equestre brasileiro”, acrescentou.

Para ele, os juízes nacionais deveriam “sentar-se com o juiz internacional e secretariá-lo; ou, então, se não tiver a secretariar, pelo menos, ficar ao lado e ouvir o que o outro está a dizer. Isso é a informação passada”, justificou.

>>> Uma segunda matéria com outra parte da entrevista será publicada em breve.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.