Raça lusa: a missão agora é por terra — análise de Raul Silva sobre lusitanos em Tóquio

Por Raul Maura Silva*

O mar, antiga via principal das conquistas portuguesas, deu lugar à terra, pelos caminhos do adestramento no seu palco principal: a Europa. Mesmo ocorrendo, desta vez, na Ásia, a democracia olímpica permite análises e projeções dos movimentos vivos da modalidade. Um dos atores permanentes dessa peça é a raça puro sangue lusitano (PSL).

Coube ao João Victor Marcari Oliva (número um do Brasil) a honra de abrir a competição, montando o garanhão castanho de 1,65 m Escorial Campline. A pressão de enfrentar os juízes ansiosos pelas apresentações da elite mundial não intimidaram, no entanto, o jovem cavaleiro brasileiro. João confirmou as notas que vinha marcando nos poucos internacionais do conjunto (com apenas dez meses de parceria), fez 70,419%, e encantou os soberanos alemães, cuja mídia especializada rasgou a seda pelo menino.

O garanhão Escorial Campline, 12 anos, é filho do Spartacus (1999), garanhão que teve performance na modalidade em sua época, numa filha do garanhão Edo, de linhagem Veiga, que produziu, além da mãe do Escorial, apenas mais 20 filhos ou filhas registrados!

Em seguida, na ordem em que concorreram os PSL em Tóquio, tivemos a apresentação da portuguesa Maria Caetano, montando o lusitano nascido na Espanha Fênix de Tineo. Puro Alter Real, o pequeno castanho de 1,61 m fez boa apresentação, anotando mais uma nota acima de 70%: 70,311%. Fênix é filho do Rubi AR, garanhão olímpico também e, até então, o PSL de melhor resultado nessa seleta esfera.

Foi, na sequência, a vez daquele que seria a estrela da raça no Japão: Fogoso Campline, garanhão criado e treinado pelo seu cavaleiro, o português Rodrigo Torres. Garanhão de boa envergadura, 1,67 m, o tordilho Fogoso é daquele tipo que basta o primeiro olhar para se ter a certeza das raízes ibéricas: chanfro convexo, pescoço poderoso que acaba sob a sela, formando um tipo bastante simbólico para o padrão racial do PSL tradicional, conhecido como “barroco”. Bem barroco. Outras características da raça como coração, regularidade, descontração e suspensão foram, nitidamente, determinantes da excelente apresentação, recebendo 72,624%.

Se as notas acima de 70% já mostravam um amadurecimento da raça no esporte, os 72 “altos” do Fogoso e de seu criador, Rodrigo, encantaram. Foi o único conjunto do PSL que chegou à disputa final individual, no freestyle, depois de ajudar decisivamente a “Equipa” portuguesa a figurar entre as melhores do mundo.

Na final, em um belo kür, criador e criatura receberam, na opinião dos sete rigorosos juízes, a nota de 78,943%, dois pontos porcentuais inferiores à nota do americano Steffen Peters e 3 p.p menor que a nota do inglês Carl Hester, duas referências da dressage. Não por acaso Fogoso é filho do Rico (irmão próprio do Pastor, montaria da Luiza Almeida em Londres 2012), da linhagem mais vitoriosa da raça no adestramento internacional, a do Hostil. Em sua linha baixa, mais tradição, o sangue Coimbra. Lusitano puro e tradicional.

Representando três países (poderiam ter sido cinco, com Espanha e França), chegou a vez do PSL da mexicana Mafer Del Valle, montando Beduíno LAN, criação do pai de Mafer, Juan José Alvarado del Valle, bom criador que bebeu na fonte do Haras Villa do Retiro, onde adquiriu a reprodutora, prenha do Veiga Dardo II, de onde surgiria Beduíno. Com apenas 1,57 m de altura e 15 anos de idade, Beduíno e Mafer anotaram 64,876%. Para a única competidora de seu país, o orgulho de uma boa participação olímpica, com montaria criada por “su papá”, valeu, certamente, muito mais do que a nota absoluta.

As maiores expectativas dos lusitanistas estavam sobre o garanhão da geração “E” da raça, Equador MVL, portanto, mais um garanhão jovem, de 12 anos. Expectativas naturais para o conjunto que chegava a Tóquio com os melhores resultados, destacadamente, nas qualificatórias olímpicas, na sela do português João Torrão.

Filho do garanhão Quo Vadis, de linhagem Andrade, Equador tem em sua linha baixa, mais uma vez, as linhagens que se confirmam no adestramento, a de Hostil e a de Alter Real, provavelmente o alicerce esportivo do atleta equino. Sua nota, mais uma acima dos 70% (barreira definitivamente rompida pela raça), 70,186% foi um sinal de que, talvez, a plena forma do garanhão tenha ficado nas vésperas da competição; ou a adaptação à longa viagem não tenha ocorrido. Valeu, sem dúvida.

Vistas as impressões acima, consolidam-se alguns conceitos, talvez particulares meus, mas frutos da observação. Alcançar 70% em Jogos Olímpicos é um resultado dificílimo e aqueles que o conseguem merecem o total respeito e admiração dos amantes do adestramento. O PSL é uma raça definitivamente protagonista da modalidade internacional e, com suas qualidades e história esportiva recente, está avançando como se esperava.

Ainda melhor: mesmo os “modelos” tradicionais, bem conduzidos, provam a qualidade da raça — nesta Olimpíada, o 16º melhor do mundo é barroco. O tamanho também não é limitante para o sucesso, os cavalos de tamanho médio têm plenas chances também. A linhagem Veiga, por muito tempo sinônimo do PSL, segue como ingrediente importante das fórmulas dos pedigrees.

O Brasil não tem mais o direito de não estar com equipe nas Olimpíadas. Temos que ser profissionais, irmos forte para os PANs, garantirmos nossa vaga e já termos preparados conjuntos aptos a anotar 70% ou mais para Paris 2024 e seguintes. Afinal, não nos falta nada, ou quase nada. Nossa evolução tem que seguir, pois, entre os tops, está seguindo; a descontração está sendo valorizada e a tensão a caminho do banimento. Tudo a favor do Puro Sangue Lusitano.

* Raul Maura Silva é médico veterinário, acompanha os lusitanos há anos e, atualmente, lidera a Virtual Stables

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