Veterinários brasileiros explicam nova cepa do EHV-1 e apontam como se precaver

Uma nova cepa do vírus do herpes equino que causa problemas neurológicos levou a Federação Equestre Internacional a cancelar concursos em dez países europeus e a criar um protocolo de melhores práticas para as provas no CSI 5* do Catar. Mesmo que o Brasil esteja longe dos lugares onde está, neste momento, ocorrendo a transmissão, algumas precauções devem ser tomadas. O Ministério da Agricultura ainda não retornou a solicitação deste noticiário para saber se houve notificação de teste positivo para nova cepa e nem sobre qual será o protocolo que o País vai adotar na tentativa de conter a propagação local. Mas veterinários entrevistados por Adestramento Brasil alertam para a importância da vacinação, bem como evitar aglomerações e reforçar o controle sanitário de propriedades e hípicas.

“Logicamente, esta doença pode chegar ao Brasil com a importação de animais que estejam positivos e transmitindo a doença, às vezes, sem sintomas. O que devemos fazer é se precaver no trânsito de animais, tendo cuidado com a entrada de novos animais à propriedade, ao recinto, ao clube hípico, ao jóquei, justamente, para não chegar animal novo sem atestado sanitário. O que temos de fazer é controlar as barreiras; as barreiras da própria fazenda, do clube hípico, do jóquei… este cuidado tem de ser efetivo com os veterinários responsáveis por cada um destes locais. Mas, como eu disse, às vezes, o animal chega sem sintoma, mas já é um transmissor da doença e este é um problema”, diz o veterinário Neimar Roncati.

Evitar aglomerações, transportes e situações de estresse, além de sempre manter os animais vacinados é a recomendação da veterinária Vanessa Sipas para prevenção da doença, uma vez que ainda não existe um protocolo formal no Brasil instituído pelo Ministério da Agricultura ou entidades esportivas. Atualmente residindo em Portugal, Vanessa Sipas conta que no dia 3 de março foi confirmado um caso testado positivo na região de Leiria, mas diz que ainda não estava definido se o animal em questão havia estado em Valência, na Espanha, epicentro do surto.

A notícia foi dada pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) citando a confirmação dada pelo Laboratório Nacional de Referência, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INAV). “Os animais que participam das provas FEI em sua grande maioria estão vacinados”, lembra Sipas.

Roncati também ressalta que essa é uma doença de notificação obrigatória. “Se houver suspeita ou confirmação, temos que levar ao conhecimento do Ministério da Agricultura para melhor controle nas propriedades. E logicamente deve-se isolar o animal para não haver transmissão entre indivíduos da mesma propriedade”, diz.

Em função do surto de EHV-1, a Federação Hípica de Minas Gerais emitiu comunicado apontando a importância de realização de um reforço vacinal o mais breve possível. “Apesar de não estar comprovada a eficácia para proteção contra esta cepa, acredito que esta seria a melhor providência para aumentar a proteção dos nossos animais”, justificou Alex Gonçalves Ribeiro, diretor-veterinário da FHMG.

Entenda a seguir o vírus e a doença:


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A cepa do EHV-1
O herpes vírus (EHV, sigla para Equine Herpes Virus) tem diferentes cepas principais que causam doenças, a EHV-1 e a EHV-4 entre as nove estirpes existentes. Ambas estão distribuídas mundo a fora e são amplamente conhecidas por veterinários. “O EHV 1 é endêmico em todo mundo. O EHV são vírus DNA, pertencente à família Herpesviridae, ainda não temos a classificação exata dessa nova cepa, mas ela está relacionada ao EHV-1”, apontou Vanessa Sipas.

Mais comuns, as cepas dos tipos 1 e 4 podem causar problemas respiratórios, principalmente, em animais mais jovens, entre um e dois anos de idade, e é uma infecção respiratória como a gripe. Elas também podem causar abortamento em éguas gestantes e existe ainda a demonstração da doença neurológica.

“Normalmente, a doença na forma neurológica é uma mutação dos vírus pré-existentes. E, quando a gente tem uma mutação — e é o que estamos assistindo com covid-19 —, logicamente, este vírus vem com características diferentes na sua contaminação, às vezes, mais agressiva, às vezes, com inabilidade das vacinas já existentes induzirem resposta imune pelo organismo para poder se defender da cepa nova. A suspeita é que exista uma cepa nova, que é mais agressiva, que causou letalidade em vários animais e ela deve ter contaminação mais facilitada entre animais, porque ela deve ser mutação das cepas já conhecidas previamente”, explica Neimar Roncati.

A transmissão
A transmissão ocorre de cavalo para cavalo pelos aerossóis, corrimentos nasais ou oculares ou restos fetais de um aborto, por contato direto ou indireto com secreções, no caso de animais adultos. “Sabe-se que os herpesvírus equinos (HVE) encontram-se amplamente disseminados na população equina. A reativação, excreção e transmissão do vírus ocorrem após situações de estresse (treinamento excessivo, parto, transporte) ou tratamento com corticoides”, assinala Sipas.

Além disso, a transmissão também pode se dar por meio de vários utensílios que são utilizados no dia a dia da vida do animal — ou seja, como um cocho de água ou ração, escova que passa em animal doente e é usada para escovar outro animal. “O vírus pode ser carreado. Se um animal doente expurgar o vírus, outro animal pode contrair ou ele pode expurgar o vírus no ambiente e este vírus, apesar de não tem capacidade de ficar muito tempo no ambiente, dentro de um intervalo, ele pode sim contaminar outros animais e também por utensílios”, explica Roncati.

As doenças
A doença que causa depende da cepa que acomete o indivíduo. Normalmente, diz Roncati, são abortamento (perda de fetos nas águas prenhas), doença respiratória, ou seja, infecção causando tosse, corrimento nasal, problemas relacionados a uma faringite, a uma traqueíte e algumas cepas, principalmente as mutantes, podem induzir doença neurológica. “Quando acomete o sistema nervoso central do equino, os sintomas são extremamente variáveis, como animais deitados, que tem inabilidade de movimentação dos membros pélvicos, com incontinência urinária, com inabilidade de movimentação de cauda, animais com alteração de comportamento… depende da região acometida do sistema nervoso central”, aponta Roncati.

Isso pode, inclusive, levar à inabilidade à vida no caso, por exemplo, de um animal que se deita e não consegue mais se locomover, não consegue mais se alimentar e acaba vindo a óbito por um processo inflamatório causado no sistema nervoso central, assim como pode causar processo inflamatório nas vias respiratórias ou pode causar processo inflamatório no conduto reprodutivo das éguas prenhas levando a óbito do feto, com abortamento.

Vanessa Sipas detalha que o EHV-1 é responsável por desenvolver doença respiratória (rinopneumonite), abortamento e doenças neurológicas, como mieloencefalite. “A mieloencefalopatia é menos comum do que as outras formas de doença causadas pelo EHV-1; entretanto, surtos de manifestações neurológicas têm sido relatados tanto no Brasil, Europa e outros lugares”, alerta.

Os sintomas
Para saber se algum animal pegou, é preciso analisar os sintomas mais comuns e há exames que podem ser realizados de pesquisa da presença do vírus e até de sorologia de pesquisa de anticorpos contra este vírus. É imprescindível consultar um médico veterinário paraa pontar e colher exames necessários para tentar isolar a presença do vírus. “Há exames modernos como PCR, como se faz para covid, ou por sorologia para saber se aquele animal teve contato, se tem anticorpos para aquele herpes vírus. Então, depende de uma pesquisa por um médico veterinário, na dependência do quadro para saber que exame colher”, ressalta Roncati.

Os sinais clínicos de doença respiratória por EHV, diz Sipas, incluem aumento de temperatura, tosse, secreção nasal e falta de apetite. Já os sinais clínicos da forma neurológica do EHV incluem fraqueza muscular, falta de força, incapacidade em levantar a cauda, ataxia, incontinência urinária e fecal, até paraplegia e morte, podendo acometer equinos de diferentes idades.

Tratamentos possíveis
Não existe tratamento específico, o que se faz é tratar os sintomas e dar suporte. Para Sipas, os antivirais não são eficazes em equinos, sendo muito importante isolar os animais doentes.

No caso de provocar aborto, Roncati aponta a necessidade de inutilizar a égua no próximo ano, caso ela tenha sido contaminada por herpes. Em relação à infecção respiratória, ele aconselha o repouso do animal e a utilização de anti-inflamatórios e antitérmicos. Se for afeção neurológica, se for herpes vírus causando doença no sistema nervoso, o tratamento também é sintomático, ou seja, devemos tratar os sintomas apresentados pelo animal na tentativa de ele mesmo contra-atacar a herpes vírus, expurgar e assim termos a melhoria do animal. “Muitas vezes ele pode vir a óbito, muitas vezes ele pode convalescer da doença, mas o tratamento é sintomático, não existem antivirais específicos para contra-atacar o vírus. Assim como acontece na covid-19, não existe um fármaco que seja eficaz contra; existem medidas para o tratamento sintomático para inibir os sintomas da doença”, compara.

Prevenção / protocolo
Evitar aglomerações, transportes e situações de estresse, além de sempre manter os animais vacinados é a recomendação da veterinária Vanessa Sipas para prevenção da doença, uma vez que ainda não existe um protocolo formal no Brasil instituído pelo Ministério da Agricultura ou entidades esportivas.

Roncati lembra que, apesar de não haver ainda protocolos sanitários, o Brasil está longe dos centros que estão diagnosticando a nova cepa, como alguns países Europa. “Logicamente, esta doença pode chegar ao Brasil com a importação de animais que estejam positivos e transmitindo a doença, às vezes, sem sintomas. O que devemos fazer é se precaver no trânsito de animais, tendo cuidado com a entrada de novos animais à propriedade, ao recinto, ao clube hípico, ao jóquei, justamente, para não chegar animal novo sem atestado sanitário devido pelos veterinários atestando sanidade deste animal, porque ele pode carrear esse vírus mesmo antes de mostrar os sintomas. O que temos de fazer é controlar as barreiras; as barreiras da própria fazenda, do clube hípico, do jóquei… este cuidado tem de ser efetivo com os veterinários responsáveis por cada um destes locais. Mas, como eu disse, às vezes, o animal chega sem sintoma, mas já é um transmissor da doença e este é um problema”, ressalta Roncati.

Vacinação
Outra recomendação é manter os animais vacinamos para rinopneumonite, que reúne EHV-1 e EHV-4 e cujas vacinas são fabricadas por diferentes laboratórios e estão muitas vezes associada à influenza equina. “Existe uma vacina contra o herpes vírus equino (EHV-1 e 4) que evita ou atenua consideravelmente os sinais clínicos da doença, tal como no caso da gripe. Os cavalos devem ser vacinados quando saudáveis de modo a estarem protegidos se mais tarde forem expostos ao EHV. A vacinação contra o EHV deve fazer parte do protocolo de vacinação de qualquer cavalo. Não se recomenda a vacinação no caso de cavalos suspeitos de EHV, pois pode haver agravamento dos sinais clínicos”, aponta Vanessa Sipas.

A vacinação, reforça Roncati, é a melhor alternativa. “As vacinas contra herpes vírus são potencialmente bastante efetivas, causam imunidade eficaz nos animais e existem protocolos vacinais bastante estudados, como a vacinação de todos os animais do plantel contra o herpes vírus tipo 1 e tipo 4. Também existem variantes dessas cepas em algumas vacinas”, diz. A recomendação é vacinar a cada seis meses os animais e, no caso de éguas prenhas dar três doses da mesma vacina, no quinto, no sétimo e no nono mês de gestação para prevenir o abortamento.

É imprescindível consultar médico veterinário para realizar o melhor protocolo de vacinação na propriedade.

Com relação à nova cepa, Roncati explica que a vacina ajuda a controlar, enfraquecendo-a e ficando o sistema imunológico capaz de tentar responder contra uma possível contaminação do vírus mesmo que novo. “Assim como estamos ouvindo as cepas novas da covid-19, é importante tomar a vacina, porque diminui as taxas de transmissão e diminui o risco de doenças graves que levam a óbito e internações. Então, a vacinação é fundamental já com as vacinas disponíveis no mercado.”

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