Tenha calma, estabeleça um plano e divirta-se — os ensinamentos de Michael Rohrmann, mestre-equitador alemão

Você tem tempo para executar o exercício. Estabeleça um plano antes de começar a montar com o objetivo que quer alcançar e tenha em mente que pode precisar mudar, então, conte com planos A, B, C…Z. E, mais importante: você e seu cavalo precisam se divertir; treino não é competição. Esses foram alguns dos ensinamentos que o alemão Michael Rohrmann, mestre-equitador aprovado pela Federação Alemã, compartilhou com alunos de níveis variados, profissionais e amadores, durante uma clínica em São Paulo. Durante as aulas, o reitlehrer enfatizou o que todos que montam deveriam ter como mantra: a boa base é tudo; é o que sustenta e o que leva o conjunto adiante.

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Antes de começar cada uma de suas aulas práticas, que levavam cerca de uma hora por conjunto e com muitas paradas para que ele pudesse enfatizar os ensinamentos e questionar como o atleta estava entendendo o exercício e se sentindo o executando, Rohrmann questionava os participantes sobre o que queriam daquele treino, qual era o objetivo.

“Se divertir montando é a base para você e o cavalo apresentarem-se. E também ter um plano, no qual você trabalhe nele e consiga crescer junto com seu cavalo. Às vezes, você tem de mudar um pouco — fazer um pouco mais focado em você, depois, no cavalo e colocar tudo junto. Isso é fundamental não apenas para uma competição, mas para uma boa amizade com o cavalo”, disse, em entrevista ao Adestramento Brasil, ao término da clínica de quatro dias.

De semblante calmo e muito paciente, Rohrmann é dono de um vasto repertório — ele contou que possui uma biblioteca com mil livros relacionados ao hipismo. “O cavaleiro não precisa de um plano A e B, mas, sim, de A até Z. O problema da equitação, quando se tem grande quantidade de conhecimento, é saber afunilar e aplicar aquilo”, afirmou.

Mas como estabelecer estes planos sendo um atleta amador? Segundo ele, é preciso estudar e testar um pouco. “Você precisa saber o que está fazendo com o movimento, conhecê-lo e praticá-lo. Você precisa de um plano e trabalhar ele passo por passo.” Uma dica é anotar, após o treino, o que foi feito naquele dia, como foi executado, o que deu certo e o que não deu.

Saia da zona de conforto

Questionado sobre qual linha de treinamento segue, o mestre alemão respondeu que existe uma única e ela é imposta pelo cavalo. Somado a isso, Rohrmann enfatizou as diretrizes do chamado livro azul com os fundamentos da escola alemã. “Muitas vezes, elas não são lidas corretamente. Se incorpora tudo que precisamos saber dos cavalos, as pessoas nem chegariam perto do livro de tão grosso que seria. O sistema é bom, mas tem de tomar cuidado para não ficar preso”, ponderou.

Manter-se aberto e curioso foi outro ensinamento. “Não sabemos o que o cavalo vai nos apresentar”, destacou, explicando que não há uma única receita, até porque os animais mudam entre si e eles mesmos podem mudar de um dia para outro. Em comum, há o fato de os cavalos aprenderem por repetição. “Quando digo cem, mil repetições, é porque, alguns levam anos até fazer o clique para aprender”, disse.

“Há a necessidade de variar o trabalho e isso não significa fazer totalmente outra coisa, mas, sim, variantes das mesmas coisas. É ser repetível até certo nível. Faço este treinamento variável e também treino dificultando; a partir disso eu consigo desenvolver para chegar à meta que eu tenho”, detalhou.

“Não é um problema que seja pouco problemático. Mas lembre-se do que você quer fazer com seu cavalo, volte e faça até que seu cavalo entenda e aprenda. Os cavalos aprendem com repetições, mas não apenas com repetição – posso trabalhar com repetição e colocando mais ou menos ajudas”, explicou.

O treinamento, alertou, também significa deixar a zona de conforto — algo que vale para cavaleiros e cavalos!

Falando sobre horsemanship, o mestre-equitador explicou que não se trata de uma técnica, mas de uma postura interior. “Não vão me ouvir dizendo palavras negativas sobre o cavalo. Quase tudo que caracterizamos no cavalo como oposição é, na verdade, uma incompreensão da parte do cavalo ou uma dificuldade, uma insuficiência física do cavalo, que não é capaz de ter a coordenação requerida naquele momento ou perdeu a concentração ou está fatigado”, ressaltou.

Antes das aulas práticas, Michael Rohrmann bateu um papo, com tradução de Claudia Leschonski

Vasta experiência
“Ao longo dos meus cursos, gosto de trocar ideias, tenho acompanhado e gosto de todas as modalidades”, ressaltou ele, que também dá aulas para treinadores. “Costumo ser chamado pelas federações estaduais da Alemanha e outras, como da Áustria, para a educação continuada dos treinadores”, completou.

Uma dica final? “Divirta-se e confie em você, confie no cavalo e confie na sua capacidade de lidar com a situação. A demanda de controle é sintoma de falta de confiança. O maior inimigo do perfeccionismo é o perfeccionismo: quando quero controlar tudo, não consigo soltar, deixar ir, que é a descontração. Quando confio em mim e no cavalo, permito que o movimento aconteça para eu agir de acordo com ele e não reagir”, enfatizou.

A ideia da clínica foi oferecer um curso internacional para pequenos criadores e proprietários de animais que, normalmente, diferentemente dos grandes haras, não têm a chance de frequentar clínica com um profissional internacional, conforme assinalou Raul Maura Silva, que organizou o evento. A clínica foi realizada no Haras Crystal, que, gentilmente, cedeu o espaço e as cocheiras.

“Eu me diverti com os alunos da clínica e acho que passei isso aos alunos, de se divertirem”, finalizou Michael Rohrmann.

Ensinamentos aprovados
A clínica teve a participação de atletas de diferentes níveis, tanto profissionais como amadores. Jeferson Rodrigo Pereira — mais conhecido como Cuta — foi um dos profissionais. “O objetivo ao participar da clínica é sempre aprender coisas novas, mas o que pegou bastante foi a base. A gente quer evoluir, apertar os cavalos, mas não podemos esquecer do que é mais importante, que é o cavalo andar reto, estar conectado de trás para frente, relaxado. E isso foi muito importante na clínica”, avaliou.

Cuta fez a clínica com o lusitano Everest Crystal com quem visa a participar das seletivas para equipe brasileira para os Jogos Sul-Americanos, o Odesur. Cuta monta Everest há cerca de cinco anos. Em 2020, a dupla sagrou-se vice-campeã brasileira, após ter feito 69,529% de nota final na São Jorge; 69,088%, na intermediária 1 e 70,795% no kür.

Entre os amadores, Ana Luisa Bazeggio fez as aulas com Fantomen do Pagliarin e contou que a clínica superou sua expectativa. “Inicialmente, estávamos pensando em levar o Fanton com o Billy [seu marido e quem competiu com o cavalo em small tour] como um reforço de treinamento visando ao Sul-Americano. No entanto, o Billy acabou me incentivando a ir, uma vez que, no dia a dia, sou eu quem ajudo ele com o cavalo. Então, as expectativas acabaram sendo muito mais voltadas a evoluir nosso conjunto para nos ajudar no circuito de provas em 2022”, disse.

Bazeggio competiu até a elementar com Fanton, mas parou quando teve seu primeiro filho. Agora, a amazona que, junto com Roberto Souza (Billy) tem o Manège Mon Cheval, quer voltar às competições. “Para mim, com certeza, o que ficou marcado foi a necessidade de, sempre que temos dificuldade com algum exercício ou quando queremos aprimorá-lo, voltarmos para a base. Retidão, transições, pensar pra frente. Com esses ingredientes e muita experiência em seu olhar e exercícios, Michael conduziu uma clínica auxiliando no desenvolvimento de todos. Dos mais inexperientes aos cavaleiros de GP. Eu amei. “Fun and Forward”!”, ressaltou a amazona, fazendo referência à expressão repetida à exaustão pelo professor.

Outra amadora, Helena Botelho Gomes tem os cavalos como parte de sua vida desde criança. Fez inúmeras cavalgadas e, de uns anos para cá, passou a participar de enduros planilhados e a experimentar a equitação de trabalho. “Mas nada disso funciona sem a Equitação”, assinalou. Nos últimos tempos, o adestramento ganhou sua atenção. “Descobri que, na verdade, não sabia o que até então achava que sabia: montar”, contou.

Com relação à clínica, Helena Gomes disse que ela foi extremamente proveitosa. “O ponto principal, no meu caso, foi descontrair meu corpo de modo a montar com mais naturalidade; aliviar a rigidez das mãos e dos braços e usar melhor as outras ajudas. Para isso, o professor recorreu a exercícios inovadores que me obrigaram a ‘sair da caixinha’”, apontou.

“Mais do que pensar em provas, Michael teve como meta nos ajudar a aprimorar nosso desenvolvimento como um todo. Desde a melhorar a movimentação e musculatura até a fazer os exercícios com um nível de exigência maior. E, claro, isso só seria possível exigindo uma base de altíssima qualidade”, completou Ana Bazeggio.

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