Respeito e paciência são os ingredientes-chave para a correta doma

Transformar potros em bons cavalos de adestramento requer, antes de tudo, respeito e paciência. É preciso avançar no trabalho de doma seguindo o tempo de amadurecimento do potro para que ele se desenvolva de maneira adequada, formando um cavalo com ritmo, descontração e aceitação da embocadura.

“Sair da liberdade para uma contenção em uma baia e o trabalho diário pode ser um momento um tanto traumático para os potros. O mais importante é ter muito respeito e carinho com eles. Eles terão de aprender diversas coisas e em um curto espaço de tempo”, aponta Martina Irene Brandes, treinadora-chefe da Fazenda Interagro.

Para Claudia Leschonski, médica veterinária, instrutora na Universidade do Cavalo e docente da Uniso — Universidade de Sorocaba, os erros mais comuns no período de doma estão relacionados à falta de conhecimento e à impaciência do treinador. “A pessoa que conhece sabe que o bom cavalo demora tempo para ser moldado”, diz. Além de ter boa-vontade, paciência, carinho e amor pelo animal, o treinador, assim como proprietário, investidores e cavaleiros, precisa ter conhecimento e saber sobre a graduação da escala de treinamento.

“Um erro comum é querer fazer uma reunião antecipada sem se preocupar com descontração e ritmo. As pessoas tendem a inverter a pirâmide de treinamento; a querer começar por passage e piaffe, porque acha a coisa mais linda. Tem animal sendo colocado em freio-bridão aos cinco anos de idade e, às vezes, até menos. Daí, não há andamentos e nem descontração; os cavalos ficam encapotados em vez de estarem no contato”, detalha. “O verdadeiro adestramento, as figuras avançadas são resultados de um trabalho de base longo e criterioso feito por pessoas competentes e bancado por proprietários que entendem isto”, completa Leschonski.

O trabalho de doma deve começar de maneira branda e evoluir conforme a aceitação e a maturidade do animal. Insistir demais em algum ponto ou avançar rapidamente pode comprometer o treino e mudar o comportamento do animal. O potro precisa se sentir seguro. Martina Irene Brandes explica que por período de doma entende-se o tempo que o potro necessita desde sua entrada nas baias até estarem aptos a iniciar seus treinamentos com o equitador. Isso quer dizer que eles passarão da doma para o treinamento quando estiverem aptos a andar a passo, a trotar e a galopar montados em uma pista aberta.

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Martina Irene Brandes: “O mais importante é ter muito respeito e carinho. Eles terão de aprender diversas coisas e em um curto espaço de tempo”

Para chegar a este nível, contudo, é preciso passar por uma fase na qual o animal se acostuma com o novo ambiente e a uma nova rotina, como receber o cabresto, ser escovado, ter os cascos limpos, tomar banho e aprender a caminhar junto com o domador até ser iniciado nos trabalhos à guia. “Eles devem se acostumar com manta e sela, para depois terem colocado bridão em suas bocas. Quando o cavalo estiver confiante com todo este equipamento, inicia-se o momento da aceitação do domador em seu dorso e começa o trabalho montado no redondel. Finalmente, o animal será conduzido ao trabalho em pistas maiores e a passeios pela fazenda. Ao término dessas etapas, o potro será direcionado ao treinamento com os equitadores”, conta a treinadora-chefe do Interagro.

Esse é um dos métodos existentes entre vários. A técnica horsemanship natural orienta a primeiro fazer um longo trabalho de chão e de cabresto, no qual o cavalo é treinado a ser submisso. “Ele entende no chão sem o cavaleiro o que vai fazer depois com o cavaleiro em cima. Daí vem a dessensibilização da sela e depois o trabalho com o cavaleiro em cima. Funciona muito bem e, cada vez mais, é usado no adestramento”, diz Claudia Leschonski.

Outros lugares ainda usam a doma europeia. “Ela é mais tradicional; basicamente uma habituação por repetição. Fica trabalhando na guia sem nada por alguns dias, depois se coloca a sela e a cabeçada e segue rodando na guia. Depois, aos poucos, vai colocando o cavaleiro em cima e continua o trabalho na guia. Daí, um dia tira a guia e assim vai indo. É uma dessensibilização progressiva”, explica Leschonski. “Todas estas técnicas funcionam. O que a gente tem de ter em mente é se a pessoa que está domando usa a violência, usa a coação pelo medo, usa agressividade em relação ao cavalo como maneira de mascarar ou compensar a própria falta de habilidade técnica”, pontua.

Claudia Leschonski
Claudia Leschonski: “A pessoa que conhece sabe que o bom cavalo demora tempo para ser moldado”

Longo trabalho
Quanto à idade para início da doma dos potros ela vai variar muito conforme a raça do animal. Enquanto nas raças puro sangue inglês (PSI) e quarto de milha iniciam-se a doma aos dois anos, nos lusitanos, começa-se quando os potros atingem a idade de três anos. “Neste momento, os animais serão trazidos para a baia e iniciamos, primeiramente, os trabalhos de aceitação e confiança no ser humano”, explica Martina Irene Brandes.

Porém, nem o marco dos três anos deve ser algo imutável. A treinadora-chefe do Interagro explica que deve ser observado o desenvolvimento dos animais, como, por exemplo, a estrutura física e a maturidade. “Se um potro é tardio no desenvolvimento, ele ficará por mais tempo no pasto. No PSI e quarto de milha é feito um controle radiográfico do ‘joelho’ dos animais para verificar se a epífise de crescimento está ‘fechada’. Assim sendo, o animal estará apto ao início de seus treinamentos”, completa.

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Os cavalos de adestramento são mais tardios, ficando prontos para o nível mais avançado lá pelos oito anos. Como ressaltou a amazona Pia Aragão na matéria sobre a prova cavalos novos 7 anos, é preciso cuidar muito da educação para não ir rápido demais, porque, se começar a reunir antes de o cavalo estar pronto e musculoso, vai perder andadura e provavelmente o animal terá lesões lá na frente.

“Um cavalo que faz a reprise de 7 anos, naturalmente, está pronto para seguir carreira internacional, competindo em FEI small tour quando tiver oito anos, que é uma boa idade para começar essas provas. Acredito que ele deva permanecer no small tour de um a dois anos e depois provavelmente seguir para grande prêmio”, explica.

Leschonski lembra que os cavalos olímpicos têm, na maioria das vezes, entre 12 e 15 anos, sendo alguns até mais velhos. “Um cavalo olímpico de adestramento de dez anos é considerado jovem”, aponta a especialista. “Antes dos dez anos, ele não teve como aprender a dificuldade e a complexidade do adestramento avançado. Os alemães antigos falavam de três números: três, cinco e oito. Três anos para começar a doma, cinco anos para começar as competições em nível iniciante e oito anos para se ter um cavalo que começa a chegar a seu nível máximo”, ressalta, pontuando que muitas pessoas têm pressa demais e expectativa demais, o que atrapalha o treinamento.

Fotos: divulgação

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Este conteúdo foi produzido por Adestramento Brasil e tem o patrocínio da Fazenda Interagro.

Fotos: divulgação Interagro

 

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