Claudia Leschonski: ritmo e descontração devem ser objetivos da doma

Com a doma concluída, o cavalo jovem começa a evoluir seguindo os princípios da escala de treinamento. Em uma longa entrevista ao Adestramento Brasil, Claudia Leschonski, médica veterinária, instrutora na Universidade do Cavalo (UC) e amazona amadora de salto e CCE, explica como, idealmente, deve ocorrer o treinamento do animal e frisa como a formação correta do cavalo pressupõe a qualificação do cavaleiro. Ela aborda também as dificuldades enfrentadas no processo e destaca que o ritmo e a descontração devem ser objetivo da doma.


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Adestramento Brasil — Na nossa primeira entrevista (leia aqui), falamos que, na doma, é preciso avançar no trabalho seguindo o tempo de amadurecimento do potro para que ele se desenvolva de maneira adequada, formando um cavalo com ritmo, descontração e aceitação da embocadura. Como pensar a evolução desse trabalho com base na escala de treinamento?
Claudia Leschonski — Pensando em um cavalo jovem com a doma concluída, ele vai ganhar condicionamento físico e mental, ele tem de aceitar um cavaleiro em cima dele sem reações, sem tensão e estar confortável com a situação, ter os três andamentos, alto, esquerda e direita. Outra coisa que eu gosto de considerar, em paralelo à escala de treinamento, é a questão da disponibilidade e capacidades física, técnica e emocional. Físico significando os atributos físicos, como força, resistência, elasticidade e também a saúde, no sentido de não doença (como dores variadas: costas, pernas, dentes).

Técnico significando ele aprender a fazer tudo que não é a priori natural para o cavalo, mas ele vai aprendendo através do trabalho montado, que seria aumentar e diminuir os andamentos, entender as ajudas do cavaleiro, partir ao galope na mão correta, começar a se tornar equilibrado e reto. Ou seja, os elementos da escala, principalmente, os depois do ritmo e da descontração, que são quesitos essencialmente técnicos, que não é natural do cavalo, mas que é um sistema de comunicação que a gente coloca neles — todas as ajudas.

O terceiro elemento é o emocional; é o cavalo querer fazer, é a disponibilidade mental positiva, é a produção de estados mentais positivos associados à prática de equitação ou ao treinamento. Se pensarmos nos negativos mais comuns seriam os cavalos tendo medo e certa frustração, impaciência e raiva, resultante de não entender o que está sendo pedido, e talvez a questão da dominância, mas isto seria resultante de um treinamento inadequado. Resumindo: o físico se traduz por conseguir ter capacidade; o técnico é como entender o que está sendo pedido e o emocional é o querer.

Quanto tempo leva, idealmente, o processo da doma?
Antigamente, quando havia menos pressão financeira, a doma levava dos três aos quatro anos de idade do cavalo e o período de remonta, dos quatro aos cinco anos. Estes números não são coincidência. A troca de dentes se completa aos cinco anos, quando, fisiologicamente, os cavalos são adultos jovens, no sentido de que organismo parou de se desenvolver e crescer, e a partir daí ele estaria pronto para o resto, no sentido de avançar mais e mais no treinamento. Eu imagino um cavalo com a doma concluída um cavalo de passeio, de campo, passeando na rédea longa nos três andamentos, em terrenos acidentados, mas não muito, morro acima, morro abaixo, incluímos leves obstáculos naturais, como barrancos, tronquinhos e água, e também que saiba lidar mentalmente e emocionalmente com a variação do trabalho — tudo isto é inspirado nos trabalhos das remontas, que é o nome que se dá no meio militar à formação do cavalo jovem.

E o papel do cavaleiro?
A formação correta do cavalo pressupõe uma qualificação do cavaleiro. Estes três elementos — conseguir, querer e entender — são muito do mundo western, do horsemanship natural. Quem eu primeiro eu ouvi falar nestes termos foi o John Lyons. Saindo da formação do cavalo e entrando na formação do cavaleiro, segundo as orientações da Federação Alemã, o famoso livrinho azul “Diretrizes para equitação e atrelagem – Formação básica de cavalo e cavaleiro – volume 1 (leia mais abaixo)” existem três estágios. Primeiro, o cavaleiro aprende o equilíbrio, que eu entendo como controle de si mesmo, autocontrole, não cair do cavalo e, de preferência, não atrapalhar muito o cavalo, conseguir harmonizar ao máximo seu peso e o equilíbrio dele em cima do cavalo em todos os movimentos, mas ainda sem o controle do cavalo. Segundo é ter o controle do cavalo, em direção e velocidade. Uma vez que você consiga não cair do cavalo, você tem de conseguir convencer o cavalo a ir para onde você quer que ele vá, na velocidade que você quer. Esta segunda fase é das transições e das ajudas e também conseguir fazer as figuras, você tem de aprender a alterar a velocidade do cavalo, direcionar o cavalo e isto resulta que andar a cavalo é o fazer ir para aonde você quer e na velocidade que você quer sem atrapalhar muito o cavalo.

Somente depois disto você está finalmente pronto para a terceira fase, que é influenciar e formar o cavalo, ou seja, a sessão do trabalho montado passa a ter o foco no trabalho e o cavaleiro oferece o que o cavalo precisa e não o que ele, cavaleiro, precisa — e isto casa precisamente com a questão das três características e capacitações: ter condicionamento físico, equilíbrio, fôlego, resistência, saber o que fazer e ter o controle emocional de não ter medo de um potro e de não estar impaciente quando algo da errado.

Quais são as dificuldades nesse processo?
A escala de treinamento é uma coisa linda e maravilhosa, mas pressupõe um cavaleiro perfeito. Todos os livros alemães, especialmente os mais antigos e as diretrizes, são uma bíblia que retratam o mundo perfeito. Todo mundo consegue a descontração, consegue ajudas claras e bem definidas, é tudo perfeitinho. E sempre me ajuda a pensar que foram escritos e desenvolvidos em uma época para cavaleiros profissionais, militares e militares jovens, de físico extremamente preparado, que tinham de obedecer a ordens e passavam o dia todo andando a cavalo, ou seja, as limitações físicas, técnicas e emocionais não cabiam naquele universo.

Quando a gente vai mexer com cavalos, o primeiro requisito é saber como está a pessoa, o cavaleiro, e se ele consegue fazer isto — ele quer, mas ele consegue, ele sabe, ele entendeu, como é a formação de equitação dele? Para que o cavalo consiga obter toda a escala de treinamento, o pressuposto é a capacitação do cavaleiro. Se você voltar nos três pontos da federação alemã — primeiro, formar assento e equilíbrio do cavaleiro; segundo, instruí-lo na condução do cavalo e só depois disto que ele está apto a formar o cavalo —, você vai ver que a maior parte das pessoas encalha nos dois primeiros requisitos.

Como a escala de treinamento orienta a formação do potro?
Vamos imaginar que temos um cavaleiro com compreensão técnica, capacidade física e a qualificação emocional, que é ter paciência, de obter os três primeiros degraus da escala de treinamento — ritmo, descontração e contato — num cavalo razoavelmente normal. Por onde começar? A pirâmide ou escala de treinamento é a diretriz, o fio condutor, tanto para a vida e a formação do cavalo jovem até a maturidade, como também da sessão de trabalho, ou seja, seu cavalo de grande prêmio de 16 anos de idade deve começar a sessão de trabalho buscando ritmo, descontração e contato. Isto, às vezes, em um cavalo novo vai levar 40 minutos e no seu cavalo maduro, que sabe as coisas, vai levar cinco ou dez minutos. Mas isso tem de existir em todos eles.

Muita gente pergunta por que começamos pelo ritmo e não pela descontração. E algumas escalas, como a linha francesa ou a linha do Dominique Barbier, entre outros, questionam um pouco isto, eles acham que a descontração deveria vir primeiro. Em primeiro lugar, eu lembraria que estes elementos funcionam em pares, na verdade, descontração e ritmo vão meio que se alternando, uma hora você tem mais foco no ritmo e na outra na descontração. Quando você está satisfeito com ritmo e descontração, pode começar a colocar o contato, sendo que você não pode perder os anteriores. Isto é, se você está colocando seu cavalo no contato e ele ficou tenso, se o ritmo se perdeu, o foco deve sair do contato e voltar para o ritmo com descontração. E assim o negócio vai subindo. Por isto, o cavaleiro também tem de ser ele também maleável e ir alternando; não é uma caixinha, nem um quadrinho duro, é só uma diretriz. Quando estamos focados no ritmo, a gente vai pensar na descontração, mas eu gosto de buscar o ritmo primeiro.

Por quê?
Tem uma frase do Fred Gomes Amaral, nosso instrutor de salto [na Universidade do Cavalo], que fala que o ritmo vem primeiro, porque é o que todo cavalo sabe fazer. Claro, o cavalo novo, que nunca pensou em nada disto, já vem com ritmo. Com três anos de idade, ele tem passo, trote e galope ritmados. O potro traz o ritmo naturalmente consigo e daí você restabelece isto sobre o peso do cavaleiro montado e com o comando do cavaleiro, ou seja, o potro aprende a reorganizar o ritmo que ele já tem quando montado. Ele mantém a impulsão natural, do movimento para frente, ele vai andando, sempre lembrando que movimento é uma coisa natural, porque o movimento para frente atende à característica natural de segurança deles de se manterem em movimento — é uma atenuação do instinto de fuga.

Como assim?
Vamos supor que o potro esteja meio tenso ou nervoso com alguma situação, nesse momento, para qualquer cavalo estar em movimento é muito melhor do que ficar parado. Na iniciação dos potros, a gente se utiliza disto para o cavalo não ficar nervoso. Vamos andando e, daqui a pouco, a fuga se transforma em uma coisa mais calma e a coisa vai indo. Ou seja, o ritmo leva à descontração; e a descontração se obtém através do ritmo, é como um mantra, zen, ioga — através do movimento ritmado, a descontração vai sendo alcançada.

Existem casos raros em que o cavalo é tão tenso, tão problemático e acuado que o primeiro foco tem de ser a descontração para aliviar a tensão, mesmo que o ritmo se perca um pouco. Significa que seu trote está mais devagar ou mais rápido do que seria um ritmo bom ou que o ritmo vai se picando ou que dá rompantes no galope. Nestes casos, são coisas que se devem aceitar até o momento seguinte. Mas isto é mais comum em cavalo de correção, que tem histórico problemático, que passou por experiências traumáticas, e não em potro. Se o potro está nesta situação, eu te diria que ele não está pronto para ser montado, que a doma não foi bem concluída, foi precipitada e não foi bem-feita. O objetivo da doma é justamente este e, se o cavalo corcoveia, se pula, treme quando o cavaleiro monta, ele está dizendo que não está pronto para ser montado, não está confortável com aquela situação, falta horsemanship, falta uma avaliação desta situação e, então, temos de retroceder um passo.

Por tudo que eu descrevi, ritmo e descontração são objetivos da doma e deveriam estar presentes no cavalo jovem, de doma concluída. Quando eu falei no cavalo jovem, de rédea solta e passeando pelo campo, é justamente isto. É um cavalo que tem ritmo nos três andamentos, que tem descontração física e mental, mas que ainda não estamos focados no contato. No trabalho que fazemos na Universidade do Cavalo, que é inspirado em horsemanship natural com alguns elementos de equitação clássica, são tipicamente os potros montados no cabresto de doma, onde não se colocou a embocadura ainda. Em alguns até a gente coloca a embocadura mais cedo, mas ela só está lá, o contato ainda não está presente. O ritmo e a descontração vêm durante a doma. Se seu potro domado não tem isto, a gente tem de retroceder.

Como você descreve ritmo?
Ritmo é o cavalo conseguir apresentar quando montado um bom passo de quatro tempos, um bom trote de dois tempos e um galope bem marcado de três tempos. Estes três andamentos podem ser de trabalho, neste momento, não precisa mais do que isto, não precisa ser alongado, e, obviamente, não precisa ser reunido. No reunido, precisaríamos de contato, que o potro ainda não tem e não está pronto para isto. O alongado, às vezes, os potros nos dão, mas daí não é alongado de verdade, é corrido (não é back mover, mas leg mover, e não é o que queremos). O potro não está totalmente reto, lógico, terá um lado mais fraco e um lado mais desenvolvido, mas consegue galopar nas duas mãos e em círculos bem grandes, de uns 30 metros, seguindo o próprio focinho para os dois lados.

E a descontração?
Queremos a descontração física e mental do potro. É ele não estar mais tenso em uma parte do corpo do que em outras e ele não ter estados mentais negativos (medo, tensão, raiva, instinto de fuga ou luta). Já na descontração física, o principal elemento é que o corpo consegue seguir o focinho nas duas mãos e, principalmente, ele começa a colocar a ideia de back mover, que é a musculatura do dorso trabalhando, é não estar com o dorso travado e estar mexendo as quatro pernas. Daí, vemos muitos pecados sendo cometidos. Na descontração, o cavaleiro que não tem um assento decente, que tem um assento que soca, que não tem uma mão que acompanha, jamais vai conseguir obter isto no cavalo, especialmente, naqueles de movimentação exuberante.

“Diretrizes para equitação e atrelagem – Formação básica de cavalo e cavaleiro – volume 1 é a obra introdutória da Federação Equestre Alemã (FN) que contém os princípios básicos de formação de cavalo e cavaleiro. Entre vários conceitos, descreve os três estágios da educação do cavaleiro e também os seis degraus da escala de treinamento, nos quais se baseia todo o bem-sucedido sistema alemão de equitação clássica. A edição brasileira foi realizada pela equipe da UC (Universidade do Cavalo), com tradução de Claudia Leschonski e prefácio de Aluísio Marins, além de um glossário de termos técnicos. Pode ser adquirido via e-mail secretaria@uccavalo.com.br 

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