Luiz Menin, cavaleiro paraequestre: “O cavalo tem de entender nossa deficiência”

Luiz Felipe Menin teve paralisia cerebral ao nascer. Faltou oxigenação. Ele andou aos cinco anos de idade, em parte graças ao trabalho da equoterapia, que começou com apenas um ano. Aos 14 anos, já havia evoluído tudo que a equoterapia tinha a lhe oferecer. Para não deixar o cavalo, sua paixão desde sempre, decidiu treinar e competir no adestramento paraequestre.

Já disputou campeonatos brasileiros e mineiros e agora sonha com vagas para os Jogos Equestres Mundiais, que ocorrem em setembro nos Estados Unidos, e também para os Jogos Paralímpicos Tóquio 2020. Na entrevista a seguir, ele conta sua trajetória e seus objetivos.

Luiz MeninAdestramento Brasil: O que te levou ao adestramento paraequestre?
Luiz Felipe Menin: Tive paralisia cerebral quando nasci, em 1993, devido à falta de oxigenação no cérebro. Meus pais descobriram, por meio do ortopedista, que existia equoterapia em Belo Horizonte e fui iniciado com um ano. Fiz até os 14 anos, quando fui indicado à modalidade de adestramento paraequestre, que estava começando a ser divulgada pela mídia do Brasil. Fui classificado grau 2, que quer dizer que as provas só podem ser feitas a passo e ao trote. É o mesmo grau do Marcos Fernandes Alves, o Joca [duas vezes medalha de bronze em Pequim 2008, no adestramento livre e no adestramento individual]. Somos adversários dentro da pista e amigos fora dela. Ele é um cara muito simpático, gosto muito dele.

Quando você começou a disputar provas?
Comecei a competir no ano de 2007 e desde então estou me dedicando a isto. Tive um início difícil, porque comecei no adestramento com uma égua quarto de milha. Era o que eu tinha na época e, realmente, uma égua quarto de milha não é adequada para o desempenho do adestramento. Eu, por meio de uma rifa, consegui adquirir o meu cavalo lusitano Czar Aguilar.

Como é seu relacionamento com o cavalo?
Meu cavalo tem 11 anos e está comigo há seis. Ele está em ótima forma. Tenho bastante esperança nele; é um cavalo exemplar, me auxilia bastante, entende a deficiência, porque o cavalo de paraequestre tem de entender a deficiência para auxiliar o cavaleiro que o monta. É impressionante a conexão cavaleiro e cavalo. Para um cavaleiro comum já é especial; para um cavaleiro com limitação é duas vezes mais especial. Sou muito grato a este cavalo por tudo que ele tem feito por mim e por tudo que poderemos alcançar nos próximos anos. O cavalo educa; eu fui educado pelos meus pais e também pelo convívio com cavalos.

E sua relação com o adestramento?
Eu tenho amor profundo pelo adestramento em geral, tanto paraequestre como o clássico. Sou um estudioso de cavalo, modéstia à parte. Eu gosto muito de cavalo. Minha vida hoje é cavalo. Eu também dou palestras motivacionais devido à minha história de vida. Acho que é muito importante para ajudar pessoas.

Quais são seus objetivos para este ano?
Quero fazer um bom brasileiro [o campeonato brasileiro de paraequestre está marcado para março]. Quero repetir as boas apresentações que eu tive em 2017 e 2016, tentando melhorar e dar o melhor de mim para que as notas continuem subindo. Quero tentar uma vaga para os Jogos Equestres Mundiais [Tryon, WEG 2018] em com certeza, também é um sonho representar meu País em uma Olimpíada. Se for em Tóquio 2020, muito bem, mas, se não for, vou continuar trabalhando, porque eu monto para mim. A competição não é o objetivo central. O objetivo central é que você tenha um cavalo que saia da cocheira de um jeito e volte para cocheira melhor do que saiu. Se você faz um bom trabalho em casa, normalmente, a prova é boa. Se você não trabalha de forma correta em casa, suas notas não serão esperado. Quem fala “eu vou para uma Olimpíada”, mas não faz esforço para que isto aconteça, não vai.

Qual é o foco do seu treinamento para este ano?
Estou focando, atualmente, na reprise individual e por equipe por causa do brasileiro. Meu principal objetivo agora em março é representar bem o meu Estado [Minas Gerais] e, assim, galgar maior pontuação para que minha carreira evolua. Estou focando mais na noção do equilíbrio do cavalo, na percepção dele sair do chão, porque, quanto mais ele sair do chão e elevar o andamento, é melhor, porque o trote, quanto mais suspenso for, mais notas nós temos. Estou trabalhando para ter o cavalo com mais nuca alta e atitude de trote para cima.

calhau_interno

Como você avalia o adestramento paraequestre brasileiro atual?
O adestramento paraequestre no Brasil tem desenvolvido muito graças a uma pessoa chamada Marcela Pimentel. Ela fez, junto com outras pessoas, o primeiro cavaleiro paraolímpico do Brasil, o Marcos Fernandes Alves. E, desde então, não desistiu na divulgação, na infraestrutura… ela faz de tudo para que o esporte aconteça no País. Sou muito grato a ela, porque sem ela o adestramento paraequestre neste País não existiria da forma que é hoje.

Quem você admira no adestramento?
Eu gosto do Juan Manuel Muñoz Díaz e do Daniel Pinto, cavaleiros que eu acompanho o trabalho com mais frequência. Gosto muito do estilo de montar dos dois. Tento tirar destes dois cavaleiros, obviamente adaptando à minha deficiência, coisas para mim, tento copiar. Eu acho que temos de ter referência mundial neste esporte.

Como é seu dia a dia?
Eu acordo e durmo pensando em cavalo; treino com frequência de, no mínimo, três vezes por semana. E, quando não monto, pergunto para o professor, que trabalha ele, como anda o trabalho. Tento ser o cavaleiro e proprietário mais próximo deste trabalho, porque o cavalo é uma ferramenta de trabalho que tem de estar afiada em seu maior nível para poder dar o máximo possível para a gente.

Fotos: cedidas pelo cavaleiro; arquivo pessoal

WhatsApp

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s