Permeabilidade deve ser a finalidade da formação do conjunto

Na permeabilidade, a energia flui; o comando que o cavaleiro tem de fazer não vem da força, mas de uma indicação. Ela facilita a obediência para o cavalo e o torna mais habilidoso e agradável para o cavaleiro. Ao finalizar a série explicando cada uma das etapas da escala de treinamento (leia o especial completo), Claudia Leschonski, médica veterinária e instrutora na Universidade do Cavalo (UC), fala sobre como a permeabilidade deveria ser a meta a ser alcançada com base nos demais itens da escala unidos. Na entrevista a seguir, a especialista explica o que é permeabilidade, dá exemplos, detalha por que ela se difere de submissão e ressalta a importância de a energia do cavalo fluir naturalmente e sem barreiras durante o trabalho.

Adestramento Brasil — Você fala muito do conceito de permeabilidade como fio condutor da escala de treinamento. A que exatamente você se refere?
Claudia Leschonski — As seis etapas da escala de treinamento são muito faladas e comentadas, mas, para encerrar, a gente tem de falar também do objetivo final dela que é como se fosse o sétimo item, a meta dos outros unidos, que á a tal da permeabilidade. Se olharmos no livro “Diretrizes para Equitação e Atrelagem – volume 1”, temos:

“A permeabilidade atingida ao longo da formação correta facilita a obediência para o cavalo e o torna mais habilidoso e agradável para o cavaleiro. Isto vale para todos os cavalos, não apenas no hipismo competitivo, mas em qualquer utilização de sela. E, como observação a finalidade do conjunto da formação é a permeabilidade. Esta é tanto mais elevada quanto mais os demais objetivos individuais tiverem sido alcançados.”

Vamos pensar um pouco na palavra permeabilidade em si. Em princípio, não em equitação, o que é algo permeável? É algo que não retém, que não segura a substância que é colocada nele. Normalmente, associamos isto a líquidos. Uma imagem razoável é a de uma esponja, que, se você coloca água, ela vai absorver e a água vai passar para o outro lado; isto é permeável. O líquido que transita ao longo daquela substância não é retido ou bloqueado. Ao contrário, impermeável é quando você coloca o líquido e ele não avança, ele fica bloqueado ou estagnado.

Como se traduz esse conceito para o cavalo?
A Sally Swift fez várias ilustrações neste sentido no livro dela “Centered Riding”. Podemos imaginar um tubo, um cano, e que haja um fluxo de energia a ser direcionado. Este fluxo de energia, lógico, é o movimento do cavalo que vem de trás para frente. Uma imagem mental é imaginar o corpo do cavalo como um gigantesco tubo de pasta de dentes e você está sentado em cima disto. Com o seu assento e pernas, você espreme o tubo e com as mãos você direciona o fluxo de energia que sai do tubo. A permeabilidade também é que o cavalo se submeta de maneira suave para que os movimentos que você solicita dele sejam colocados da maneira e na direção para onde você quiser. Aí veja que todos os conceitos anteriores começam a voltar, ou seja, fazer o cavalo para ir para onde você quer, na velocidade que você quer, que são o ritmo, a retidão e a impulsão.

Agora vamos imaginar que alguém colocou — e não te falou — um bloqueio dentro do tubo, uma válvula, que a pasta que está da metade para trás não consegue sair pela metade da frente, o tubo está entupido. Você sente o que? Você espreme, espreme, espreme e nada acontece — pelo contrário, aquilo começa a se acumular lá dentro, quase que gerando um risco de transbordamento, de explosão, porque a energia não consegue fluir, este é o inverso da permeabilidade. O cavalo está bloqueado, obstruído, está impermeável à passagem das ajudas. O fluxo contínuo e suave de energia não está funcionando corretamente.

O que causa a impermeabilidade?
São obstruções físicas, técnicas ou mentais. O que é obstrução física? É quando o cavalo não consegue. Obstrução técnica? Não entendi o que é para fazer. Obstrução emocional? Não quero, estou assustado, tenso, isto provoca dor, é desconfortável. Todas essas fazem com que o cavalo resista e se torne impermeável. É como quando falamos com alguém e a pessoa não quer ouvir, está impermeável às minhas sugestões e aos meus argumentos.

Este conceito não aparece na escala ou no regulamento da CBH.
Se vocês olharem o regulamento de adestramento da CBH, ele tem um conceito parecido que é submissão, mas, se você pesquisar, não vai ver permeabilidade. Submissão, à primeira vista, parece a mesma coisa: o cavalo está submisso, está fazendo tudo o que eu quero, ele executa, não tem nada de errado. Mas, se vocês pararem para pensar, pode existir submissão sem descontração, sem ritmo ou com deficiências de descontração, de ritmo e de impulsão. Muitas vezes, o cavalo está submisso, mas está sendo forçado a executar algum exercício. Eles estão fazendo o que está ao alcance deles para fazerem o que o cavaleiro está pedindo, mas eles não estão realmente permeáveis.

Sobre a submissão, o regulamento da CBH tem uma definição e conceitos bem interessantes, nas páginas 18 e 19:

“Submissão não significa subordinação, mas uma obediência que revela sua presença por uma atenção constante, boa vontade e confiança do cavalo assim como pela harmonia, leveza e facilidade que ele demonstra na execução de diferentes movimentos”;

“O grau de submissão é também manifestado pela maneira como o cavalo aceita a embocadura com contato leve e macio e nuca flexível. Resistência ou fuga à mão do cavaleiro, colocando-se acima da mão ou atrás da mão demonstram falta de submissão. O contato principal com a boca do cavalo deve ser através do bridão”;

“Se o cavalo colocar a língua para fora, se passar ela por cima […] movimentos de tensão e resistência, os juízes devem levar estes fatos em conta em seus graus, tanto no movimento em que produziram como no grau de conjunto para submissão”;

“O primeiro pensamento a considerar sobre submissão é boa vontade com que o cavalo entende o que está sendo pedido dele e é suficientemente confiante no cavaleiro para aceitar as ajudas sem medo ou tensão”.

Como perceber a permeabilidade?
Na permeabilidade, a energia flui; o comando, a solicitação que o cavaleiro tem de fazer não é muito de força, é mais uma indicação. Você abre a válvula e água e a energia fluem naturalmente, apenas com reforcinhos ocasionais. Na submissão, o cavalo pode estar sendo constrangido a fazer algo, requer muita energia, muito esforço, todo mundo faz muita força e não há um fluxo harmonioso. Esta para mim é uma ideia que diferencia o conceito de submissão; o cavalo faz, porque tem de fazer; é a ideia da pressão. Ou seja, ele está submisso, mas não está permeável, ele tem um bloqueio físico ou mental — geralmente é uma mistura dos nós —, seja porque não está preparado, não treinou o bastante, porque está em um mau movimento.

Um exemplo bem fácil de entender isto é pedir o galope reunido quando o cavalo não está totalmente pronto. Acho que todo mundo sabe que, quando um cavalo jovem começa a galopar, primeiro ele galopa relativamente solto e no ritmo natural dele, o galope de trabalho. Nos cavalos jovens e não treinados é mais fácil acelerar o galope do que diminuir. Quando você pede para um cavalo jovem encurtar um pouco o galope, tipicamente, ele vai trotar, porque ele ainda não tem força de sustentação, força muscular e capacidade de reunião necessária para isto.

Agora vamos supor que alguém — a custa de muita perna atrás, muita embocadura à frente, reforço de chicote e espora — pegue este cavalo jovem de trabalho ou também um cavalo pouco musculado e force-o a produzir algo parecido com um galope reunido, com chicote e espora, rédea bem curta, a frente bem alta e, toda vez que esse cavalo manifestar ‘não aguento, vou trotar’, a pessoa vai solicitar a continuidade do galope. Este cavalo vai produzir algo parecido com o galope reunido, mas sem qualidade de boa permeabilidade; ele vai tencionar o dorso, ele pode perder o posterior e fazer um galope cruzado, pode ranger a mandíbula, pode perder a impulsão e a qualidade do movimento. Perderam-se o ritmo, a descontração, o contato. Neste exemplo, há submissão, mas ele não está realmente permeável.

Independentemente de como você tenha sido formado e educado como cavaleiro, eu acho que vale a pena refletir sobre se o seu cavalo está submisso ou se ele está fluindo.

Como se alcança a permeabilidade?
Tem muito a ver com confiança mútua e, portanto, confiança nas habilidades um do outro. Um exercício interessante é entender, quando seu cavalo dialoga com você, que tipo de sim ele está dizendo e qual é a qualidade do sim. É um sim que você gostaria que seus parceiros de trabalho, amigos, filhos dissessem para você? Isto também é permeabilidade, permeabilidade mental que é a abertura ao diálogo, àquilo que se pede. A outra imagem muito útil é do parceiro de dança, especialmente, para adestramento. Imagina você dançar com alguém a custa de coerção, de violência física, daí estaríamos violentando o parceiro para usar uma palavra mais forte. O conceito não é difícil de entender; às vezes, ele é difícil de aplicar.

Quais são as dificuldades nesse processo?
Os cavalos mudam de um instante para outro. Recentemente, montando um dos meus cavalos, a primeira meia hora foi muito boa, mas depois não sei o que aconteceu e ele se perdeu. Ou seja, a permeabilidade dançou, acabou-se tudo. O que eu tive de fazer? Ir para o plano B, pedir exercícios mais simples, mudar minha agenda e deixar guardada uma coisa para amanhã. Então, esta mutação constante é própria do nosso trabalho com cavalos, que são criaturas vivas e estão o tempo todo no fluxo, mudando. E esta coisa do fluxo tem tudo a ver com a permeabilidade.


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