Conformação ideal protege cavalo de lesões e facilita equitação

Não existe um cavalo perfeito, mas algumas conformidades são almejadas para que o animal seja um bom atleta. Em palestra na Sociedade Hípica Paulista em 1º de setembro último, a médica veterinária e criadora de Brasileiro de Hipismo Adriana Busato analisou as características físicas do cavalo, ressaltando o que é  ideal para  cavalos de adestramento e salto.

“O que importa é a harmonia do conjunto. Alguns cavalos têm defeitos isolados, mas que no geral formam um conjunto tão bom que consegue equilibrar aquele defeito com outros ângulos, linhas e mesmo usando a força dele”, destacou Busato. A palestra reuniu cerca de 40 pessoas presencialmente e também foi transmitida pelo Facebook e Youtube da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo de Hipismo (ABCCH), cuja diretoria de adestramento promoveu  a palestra.

Aluno da escola de equitação da SHP, Denis Komoda disse ter gostado de aprender as diferentes qualidades dos cavalos de salto e de adestramento. “Outra coisa bacana que ela mostrou foi que linhagens específicas não são determinantes para produzir cavalos de salto ou de adestramento, pois campeões de salto produziram filhos campeões em adestramento e vice-versa. O importante é entender o propósito e avaliar bem a conformação do cavalo”, ressaltou o cavaleiro, que soube da realização da palestra pelo site Adestramento Brasil.

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Para Raquel Mattos, também aluna da escola da SHP, as dicas sobre o que avaliar no animal antes de comprar ou na hora de cruzar e as diferenças dos membros do cavalo quando se trata de salto ou adestramento foram as que mais chamaram sua atenção. “Ela mostrou que é possível ver qual será o ‘destino’ do cavalo desde dias de vida. Um potro mais reunido e com boa movimentação e com o chanfro mais alinhado pode ter futuro no adestramento”, lembrou.

Confira a seguir alguns ensinamentos da palestra e, ao final do texto, o vídeo da íntegra da apresentação.

palestra_adriana

Harmonia
Não vejo uma parte mais importante que a outra. O que importa é a harmonia do conjunto. Alguns cavalos têm defeitos isolados, mas que no geral formam um conjunto tão bom que consegue equilibrar aquele defeito com outros ângulos, linhas e mesmo usando a força dele. Claro que buscamos a conformação ideal, porque protege o cavalo de lesões e facilita para o cavalo fazer as coisas pedidas. Mas não existe cavalo perfeito.

Pontos que realmente são importantes para um cavalo de adestramento que, se não tiver, não tem condição é o pescoço bem conformado e a frente alta, uma nuca bem posicionada, um pescoço com saída alta — a entrada do pescoço tem de ser pelo menos um palmo acima da articulação, senão você não tem como levantar o pescoço — e a espádua tem de ser inclinada. Senão tiver espádua abaixo de 55 graus de ângulo já não tem movimentação de anterior que seja suficiente.

Em termos de posterior, é preciso observar largura, qualidade e tamanho de anca e de massa muscular da parte de cima, além de comprimento de garupa e comprimento de espaço entre as ancas, jarretes muito bem posicionados e a coluna na linha superior. Importante que o cavalo tenha um lombo relativamente longo e o balanço na coluna, se não tiver lombo que balance e distribua a força que o posterior gera, a pessoa não consegue ficar sentada. É todo um conjunto, é preciso que todas as coisas funcionem juntas para o cavalo tenha sucesso.

Porcentual de sangue
É quanto por cento tem o animal de puro sangue inglês, árabes e anglo-árabes em nove gerações. A escolha vai depender do tipo de equitação e do cavalo que procura. Quanto mais sangue, mais o cavalo será sensível, terá vontade de ir para frente e temperamento mais volátil. As pessoas que são mais nervosas talvez não tenham a estabilidade emocional para montar um cavalo muito nervoso e quente, enquanto pessoais mais tranquilas e que deixam o cavalo mais à vontade, tirando tranquilamente as coisas, vão conseguir trabalhar melhor os mais quentes. Pessoas ansiosas ou que montam muito violentamente, que sentam demais na sela, entram muito no cavalo e usam muito a perna, podem irritar o animal e vão preferir cavalos com menos sangue. A maioria dos cavalos alemães gira em torno de 25% a 33% de sangue, enquanto os holandeses têm mais que 40% de sangue. Então, você deve ir atrás do que serve para você.

Conformação ideal para adestramento
Tecnicamente deve-se buscar uma cernelha mediana para alta e um pouco atrasada para que se possa jogar a sela um pouco mais atrás. A espádua o mais inclinada e longa possível e com pivô de giro o mais alto que for possível, porque, quando o pivô de giro da espádua for alto, a mão vai inserir mais longe e de mais alto a mão vai sair. O braço tem de ser o mais vertical e longo possíveis para que se tenha o cotovelo destacado e solto em relação ao dorso e, assim, a ponta do osso úmero fique bem separada. Isto vai facilitar os movimentos laterais, como as espáduas e cessões. Os membros anteriores têm de ser corretamente alinhados e bem aprumados.

As quartelas, no cavalo de adestramento, devem ter a mesma angulação que o ângulo da espádua; e, como o ângulo da espádua é inclinado fortemente, você vai ter um ângulo de quartela também bastante inclinado. Esta inclinação gira na média de 50 a 55 graus. A quartela tem de ser relativamente inclinada, porque para o adestramento precisa ser um pouco mais longa que o normal. O normal é ter metade do tamanho da canela; então, precisa ser um pouco mais da metade da canela para ter quartela adequada e com a malemolência necessária para fazer adestramento. Os cascos têm de ser corretos e não podem ser com pinça muito longe, porque senão vai ter pivô de alavanca na quartela muito forte e vai forçar demasiadamente o boleto.

Sobre os ângulos de jarrete, se o cavalo fica com o posterior para trás da linha da nádega, terá um cavalo com dificuldade de colocar o posterior para baixo da massa e, provavelmente, em um ângulo muito aberto de jarrete. Se você tem o cavalo fechando demais o jarrete, com o posterior muito para baixo do corpo, isto é um jarrete muito difícil de trabalhar e não gostamos disto nem em cavalo de salto e nem de adestramento. O alinhamento de jarrete tem de sair reto e o ângulo mais ideal que temos para o cavalo de adestramento é por volta dos 155 graus de abertura, nem muito aberto e nem muito fechado. É preciso trabalhar com o posterior todo em conjunto, para que, quando abaixa a garupa lá em cima, na hora que faz a força para entrar o posterior embaixo da massa, todo o posterior desça e trabalhe nisto.

Busato é médica veterinária formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPr), com mestrado e pós-graduação em ciências veterinárias. Especializou-se na criação de cavalos desportivos e há 35 anos é proprietária do Haras FB, onde cria cavalos da raça Brasileiro de Hipismo na região de Curitiba. Por 15 anos foi professora-adjunta de equídeocultura e conformação e julgamento de equino do setor ciências agrárias da PUC-PR.

Atualmente, é inspetora regional do núcleo Paraná da ABCCH (Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo de Hipismo), juíza nacional da ABCCH, veterinária oficial da Confederação Brasileira de Hipismo, amazona amadora de salto, competindo na categoria 1,30 m (já competiu em adestramento) e fornece assessoria técnica no estudo genético e morfológico das matrizes e cruzamentos para criadores do Brasil inteiro.

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