Claudia Mesquita: juízes têm missão de avaliar o conjunto e seguir o regulamento

O juiz tem como missão avaliar o conjunto e busca transmitir e assegurar informações consistentes e seguras, seguindo os regulamentos da Federação Equestre Internacional (FEI) e da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH). “Os juízes não querem nada; eles vão executar o que está nos regulamentos. O juiz segue regra”, ressaltou a juíza internacional quatro estrelas Claudia Mesquita, ao comentar algo que sempre lhe é perguntado: “o que os juízes querem dos cavaleiros”. Ela ministrou palestra sobre andaduras e julgamento.

Mesquita, que acumula experiência de 25 anos como juíza, explicou que o adestramento busca o desenvolvimento harmônico e físico do cavalo, com os cavalos realizando os movimentos como se estivessem no campo. Neste sentido, o conjunto ideal é formado por um animal com desenvolvimento físico e que seja calmo, ágil e dinâmico e por amazona ou cavaleiro que tenha ajudas sensíveis, específicas (ou seja, que entrem para determinados movimentos e de forma correta) e discretas.

Antes de seguir carreira julgando provas, Claudia Mesquita competiu durante cerca de 30 anos em adestramento desde a categoria children até grande prêmio, acumulando diversos títulos, como campeã brasileira e paulista, e sendo integrante da equipe brasileira. Em entrevista em vídeo ao Adestramento Brasil, em agosto deste ano, ela explicou os aspectos fundamentais nos quais os juízes baseiam os julgamentos das provas e reforçou a necessidade da qualidade do movimento. Confira abaixo os principais pontos abordados e no assista a integra da palestra.

Andaduras
Este é o termo usado no adestramento clássico para designa o passo, o trote e o galope. O passo pode ser reunido, médio, alongado e livre, enquanto o trote pode ser reunido, trabalho, médio, alongado e, em algumas provas, é pedido o alongar o trote. O que buscamos nas andaduras, ou seja, as condições básicas, são andaduras regulares, com ritmo claro, que sejam elásticas, equilibradas, relaxadas e que tenham boa impulsão no trote e galope e boa energia no passo. Queremos ver energia ou atividade dos posteriores, com liberdade das espáduas e autossustenção do cavalo.

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Passo
O passo é movimento ativo, de quatro tempos e oito fases, com ritmo definido e constante. O cavalo tem de estar relaxado, mas com energia, com os posteriores ativos e apresentar bom transpiste, isto é avançar o máximo. Além disto, precisa ter liberdade das espáduas — “quando o cavalo está relaxado, ele movimenta as espáduas para ampliar as passadas” — e uma moldura alongada. Os pontos negativos, o que não queremos ver no passo, são ritmo indefinido, falta de atividade, cavalo tenso e que resiste, ou seja, não está na mão e o cavaleiro perde a conexão com ele, e tempos incorretos.

No passo reunidor, o cavalo está mais reunido, tem pouca elevação na frente e tem posterior mais ativo. É um passo curto, que forma as quatro fases. No médio, o cavalo já abre pouco mais a moldura, a cernelha, e ganha mais de espaço. Existe mais movimentação de cabeça. No alongado, o animal transpista e vemos movimentação de energia de todo cavalo. No passo livre, o cavalo tem o posterior ativo, ele amplia e ganha terreno.

Trote
Buscamos um movimento de dois tempos claros, com ritmo definido e impulsão natural. O cavalo deve estar relaxado, com os posteriores ativos, ou seja, com a força propulsora dos posteriores, e liberdade das espáduas para ganhar terreno. O dorso deve ser elástico (amplia e volta) para dar facilidade para reunião e autossustentação. O que não é bom: um trote sem impulsão, com repetidas perdas de ritmo nos movimentos e voltas. Por exemplo, começa em um trote de trabalho e passa para reunido, sem constância e, na prova, é importante ter ritmo constante.

Também é negativo apresentar irregularidades nas batidas (perde o equilíbrio), tensão ou resistência e ser pouco natural, com posteriores sem flexibilidade e muita ação dos anteriores em relação aos posteriores. Trote é um movimento saltado, de uma diagonal para outra, um movimento horizontal e simétrico, com dois tempos e quatro fases.

No trote reunido, os posteriores vão para debaixo do centro de gravidade que é o ponto central e a nuca fica mais alta. No trote de trabalho, o cavalo está um pouco mais aberto, os posteriores continuam entrando, mas moldura abre um pouco mais. No médio, o cavalo avança mais, ganhando mais terreno. E no alongado o posterior pisa à frente do anterior.

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Galope
O que se busca são três tempos claros e em ambos os lados, com ritmo definido, cavalo relaxado, que tenha elasticidade de dorso, arredondado e encurvado, posterior interno ativo em direção ao centro de gravidade e o externo engajado, que possua a autossustentação e equilíbrio (em todas as andaduras, equilibrado é quando não coloca o peso sobre as espáduas e os posteriores vão para embaixo da massa com peso distribuído igualmente).

Não queremos ver ritmo inconstante, de quatro tempos, com posterior que não dobra, que falte elasticidade do dorso (ou seja, não consegue avançar e voltar), com pouca atividade dos posteriores e que ele esteja sobre as espáduas. A garupa alta mostra que o cavalo está com peso na frente e com posteriores rígidos. O galope é um movimento saltado, que tem suspensão e é basculhado, com movimentação do pescoço. Para isto, é necessário que o dorso seja flexível. O galope tem três tempos e seis fases.

No reunido, o posterior está debaixo da massa; é um galope em espaço não tão amplo, com a nuca mais alta e jarretes no centro de gravidade. No galope de trabalho, os posteriores entram debaixo da massa e ele amplia a passada. No médio, amplia-se mais, ganha-se mais terreno, a moldura do cavalo aumenta e existe elasticidade do dorso. No alongado, o posterior pisa no lugar onde pisou o anterior, ele ganha terreno, espaço e amplia.

Julgamento
No tradicional, o ideal é ter cinco juízes, mas, eventualmente, pode ocorrer de serem três juízes, mas com três pode ter distorção de nota. Provas com dois juízes são complicadas, porque, se houver distorção, nem sempre o resultado será o real. Três é o mínimo, mas o ideal é ter cinco juízes para o sistema funcionar.

Até 5% de diferença de nota é admissível entre um juiz e outro, do lateral para o frontal, por exemplo. Acima de 5% é interessante — e é solicitado pela FEI — que seja feita uma reunião entre juízes para entender a diferença. Isto não altera o resultado, mas é realizado para entender a distorção.

Para o cavaleiro, é interessante analisar como os juízes como estão dando notas. Se elas estão parecidas, OK. Os juízes com ângulos de julgamento semelhantes, como em B e E, devem dar resultados semelhantes, sem distorção muito grande. Valem também para quem está na frente porque tem o mesmo ângulo de visão. O que se busca do juiz é que ele use a escala de notas e que esta utilização seja realística.

Clássico x cavalos novos
Nas reprises tradicionais, como elementar, média, forte, os juízes julgam movimento a movimento, sendo importante a execução correta da figura, com qualidade, ritmo, exatidão e graus de conjunto. Muitos cavaleiros se preocupam em fazer o alto e a saudação e se esquecem que o movimento é subdivido, tem a entrada e a saída. A postura e as ajudas do cavaleiro influenciam nas notas e o juiz deve ter sensação de qualidade do cavalo. As notas são inteiras ou meio-ponto, como 7,5, 8, 6,5 etc.

Já nos cavalos novos, os juízes avaliam a qualidade por meio das andaduras e o desenvolvimento é baseado na escala de treinamento, tendo um treinamento básico fixado pela idade. A posição e ajuda do cavaleiro não são consideradas e as notas podem ser decimais, como 7,1. Nesta série, um grupo de juízes julgam juntos em C.

Em submissão, entram eventuais problemas que o cavalo possa a ter no percurso, mas não funciona igual ao julgamento clássico. Se tem um problema de resistência não vai penalizar a não ser que ocorra repetidas vezes. Há os pequenos erros e os erros fundamentais. Em perspectiva, avalia-se o que espera do cavalo e não tem a ver com as outras notas; é com relação ao carisma, se tem potencial de subir para provas mais altas, lembrando que as provas de cavalos novos são para apresentar os animais.

Veja a íntegra da palestra:

A palestra, ocorrida em dia 27/10, foi  uma realização da diretoria de adestramento da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo de Hipismo (ABCCH), que está organizando diversos eventos deste tipo neste ano com objetivo de disseminar conhecimento sobre o esporte. “São palestras que se complementam”, diz Angela Marchi, diretora de adestramento da ABCCH.

A primeira palestra abordou o tema da morfologia e foi ministrada por Adriana Busato. Na segunda, Natacha Waddell falou a respeito de treinamento de cavalos novos e o trabalho de plano. Confira a cobertura:

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