Dolf-Dietram Keller: Brasil precisa de mais provas e conjuntos em GP

Não há no Brasil concursos suficientes de alto nível para fomentar o adestramento e melhorar o desempenho dos atletas nas competições. Além disto, é preciso contar com cavalos que façam todos os exercícios de grande prêmio e São Jorge. Esses foram alguns dos pontos da entrevista exclusiva de Dolf-Dietram Keller, um dos instrutores mais bem-sucedidos da Alemanha ao site Adestramento Brasil.

Conhecido mundialmente por treinar De Niro, garanhão com o qual venceu várias vezes o campeonato alemão professional, em 1999, Keller foi honrado com o título de mestre em equitação “reitmeister”, conferido pela Federação Equestre Alemã a poucos cavaleiros e amazonas que se destacam por suas notáveis realizações e em longa data — veja lista completa aqui. O alemão competiu adestramento concomitantemente com salto (segundo ele, sendo até mais bem-sucedido saltando), mas optou pelo adestramento quando ficou mais velho.

Adestramento Brasil: Como você avalia o desempenho do adestramento brasileiro?
Dolf-Dietram Keller: Há mais ou menos seis ou sete anos, quando vim ao Brasil pela primeira vez para competições, havia apenas dois cavalos competindo em grande prêmio. Me chamou a atenção, porque era preciso melhorar aquilo. Quando os Jogos Olímpicos vieram para o Rio de Janeiro, imediatamente antes dos Jogos, havia 12 a 15 cavalos de GP. Houve uma melhora significante nos anos que antecederam Rio 2016, porque o objetivo de todos — dos cavaleiros e dos proprietários dos animais — era fazer parte do time olímpico. Meu sentimento sobre isto é que foi uma coisa boa, porque temos agora o campeonato nos Estados Unidos [os Jogos Equestres Mundiais de Tryon em 2018] e temos mais cavalos e cavaleiros top.

O que é preciso ainda?
A primeira coisa é que ter cavalo que faça todos os exercícios de grande prêmio e São Jorge e depois tem de trabalhar a qualidade. Mas, em primeiro lugar, é preciso ter os cavalos que possam fazer os movimentos. Com isto, podemos começar a falar em atingir 70% ou 68% de nota. É um longo caminho e que leva muito tempo para conseguir, mas alguns cavaleiros e cavalos estão neste nível de exercícios de GP. O que eu vi nos últimos dois, três anos foi o aumento de competidores que estão fazendo isto. Agora, o ponto é como conseguir melhorar a qualidade dos exercícios das reprises.

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“É importante observar os concorrentes, porque dá outra visão da sua própria equitação; você vê os pontos onde precisa trabalhar mais”

Quais devem ser as principais preocupações de cavaleiros de GP quando em preparação para provas como WEG, por exemplo?
O problema no Brasil é que não há provas [de alto nível] suficientes e assim eles não conseguem obter experiência suficiente. Ter apenas cinco ou quatro competições [CDIs] por ano é nada. Na Europa, você pode competir toda semana em cinco provas diferentes.

Isto faz muita diferença, né? 
Claro! E outra coisa é você competir em provas nas quais há muitos cavaleiros top em grande prêmio. Na Europa, são 50 a 60 cavalos competindo no GP em uma competição. É importante observar os concorrentes, porque dá outra visão da sua própria equitação; você vê os pontos onde precisa trabalhar mais. Você pode aprende muito olhando outros cavaleiros e cavalos. E, se você não tem isto, se há apenas sete ou oito cavaleiros fazendo grande prêmio, eles não conseguem assistir às provas uns dos outros, porque é preciso preparar o cavalo, depois levar o animal ao estábulo e daí a prova acabou e você não viu. Para ter mais experiência é preciso olhar mais cavaleiros e cavalos; isto abre a mente para coisas novas.

Então, você está dizendo que ter no Brasil mais competições de alto nível é chave para preparar os brasileiros para as competições internacionais?
Isto é um passo, há apenas seis ou sete competindo em grande prêmio. Os atletas de salto estão fora, na Europa, onde eles podem competir todo o tempo. E isto é bom, porque conseguem uma experiência que não teriam no Brasil, onde não tem provas e nem competidores top suficientes.

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Como os cavaleiros internacionais vêm melhorando ao longo dos anos e elevando o nível da competição?
O presidente do comitê de adestramento alemão dizia que, no começo dos anos 1960, na Alemanha existiam 18 cavalos de grande prêmio e isto colocava o país na posição de líder mundial e ninguém poderia bater a Alemanha. Agora, temos mais ou menos 120 provas de GP na Alemanha e temos centenas de cavalos de GP. Isso mostra como melhorou e cresceu e não apenas na Alemanha, mas na Europa também.

Para chegar a isso, qual foi o trabalho de base que a Alemanha fez?
Temos um sistema especial na Alemanha para jovens cavaleiros. Temos aulas de pônei com campeonato europeu. Temos série para os juniores de até 16 anos também com campeonatos. Agora começamos o programa de GP para menores de 25 anos. Para a primeira classificatória, que eu fui o treinador, vieram 12 cavalos e cavaleiros — há uma classificatória em fevereiro para qualificar o conjunto para competir no ano. Agora, estão vindo 50 conjuntos de cavaleiros com menos de 25 anos para fazer grande prêmio. As pessoas estão interessadas. Outra coisa é que, se alguém da família pratica hipismo, a família toda acaba se envolvendo.

Como é a formação na Alemanha de um profissional de equitação?
Se você quer ser um profissional de equitação na Alemanha, você leva três anos aprendendo e faz o primeiro teste. Depois, passa mais três anos de aprendizado para fazer os exames finais para tentar obter um diploma de “master”. Somente após estes estágios, o profissional estará apto a se tornar um instrutor e a ensinar. No exame final, tem a parte teórica e a prática. Não é como universidade, é mais técnico e eles realmente trabalham nos estábulos e têm todas as aulas para aprender equitação, desde qual é a postura correta e o porquê dela, até reunião, descontração, impulsão, todas as coisas. E também praticam, porque na teoria é sempre mais fácil; e precisam saber não apenas como uma espádua para dentro deve ser como também conseguir fazer os movimentos. Mas, se você sabe muitas teorias, fica mais fácil praticar. É o básico e, se você não sabe a teoria, você não saberá fazer, porque não terá a educação necessária para isto.

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“Você [precisa de dinheiro] para comprar bons cavalos e manter estes bons cavalos. E tem de ter patrocinadores que estejam dispostos a manter estes bons cavalos”
Mudando de assunto, você assistiu às provas na Olimpíada do Rio? O que achou?
Eu fiquei um pouco triste com a falta de público, por não ter expectadores suficientes e interessados. Mas, claro, é bem longe para o resto do mundo e, principalmente, da Europa, que é o centro do adestramento. O preço dos ingressos também estava muito alto. Daí a arena ficou vazia, o que não faz o menor sentido. Construíram tudo aquilo para a competição e não conseguiram vender ingressos porque estavam caros. Além disto, se você tem apenas dez pessoas fazendo adestramento no nível olímpico ninguém estará interessado, como você pode ver. As pessoas não conhecem adestramento, não é popular.

Não é mesmo. E, se uma pessoa que não conhece decide ver hipismo, é mais fácil de entender as provas de salto.
Absolutamente.

E em termos de qualidade das apresentações no Rio 2016?
Em geral, o maior passo foi dado em Londres em 2012. Antes, se você tinha quatro cavalos fazendo mais que 70%, o país tinha chance de ganhar uma medalha por equipe. Mas, desde Londres, aumentou para 80%. E isto você também pode ver nos campeonatos europeus.

Leia também: Evolução dos índices olímpicos 

Em sua opinião, o que fez as notas saltarem de uns 70% para 90%?
Se você assistir a vídeos antigos, fica muito fácil de entender de que [reprises consideradas boas] não teriam a menor chance hoje de medalha. Temos um nível totalmente diferente. O adestramento como um todo aumentou o nível. A criação dos cavalos está tão diferente: há criação somente para adestramento, apenas para salto, então, temos resultados muito mais altos. E também há muito mais gente montando e treinando, ficou mais popular.

As notas serão mantidas neste nível?
Elas irão aumentar mais. Se você seguir a linhagem e analisar a criação dos cavalos, em cada campeonato internacional, verá que tem cinco, seis crias do De Niro, um dos cavalos que ficou na posição de liderança mundialmente. Na próxima década, haverá outro cavalo.

Do ponto de vista da amazona ou cavaleiro, o que precisa para se manter no topo?
Dinheiro. Você precisa comprar bons cavalos e manter estes bons cavalos. Tem de ter patrocinadores que estejam dispostos a manter estes bons cavalos. Você certamente conhece a Isabell Werth, ela tem a patrocinadora que está gastando muito dinheiro para ajudá-la a permanecer neste nível do esporte. Você precisa de cavalos. Um cavalo sem cavaleiro é ainda um cavalo, mas um cavaleiro sem cavalo é apenas um ser humano.

Para aqueles que estão começando, quais dicas você dá?
Leiam livros, busquem conhecimento sobre o que está fazendo. Leia sobre equitação. Tem a escala de treinamento — ritmo, flexibilidade, contato, impulsão, retidão e reunião. Em todo exercício que você faz, em todo momento que você monta um cavalo, ele tem de estar junto. Se um cavalo não está conectado e com estabilidade no pescoço, ele vai perder o ritmo. O cavalo sem ritmo nunca terá impulso, não conseguirá obter impulsão. Se o cavalo não estiver realmente em contato, na sua mão, você nunca terá o cavalo corretamente na retidão e não poderá fazer espádua a dentro ou outros movimentos.

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